Este livro traz a perspectiva antropológica para o debate sobre a velhice, comumente dominado por publicações das áreas de gerontologia, medicina social e psicologia. O objetivo básico dos diferentes trabalhos nele reunidos é compreender a construção social dos significados conferidos à velhice e ao processo de envelhecimento. Com esta obra, a antropologia mostra que, comparecendo sistematicamente nas discussões interdisciplinares sobre o tema, acompanha o próprio movimento de descoberta da velhice por parte da sociedade, trazendo para a reflexão a apreensão dos fenômenos da velhice a partir de uma análise cultural.
A ciência começa a explicar de onde vem o prazer que gastar dinheiro proporciona
Por Daniela D'Ambrosio
Ilustração Fernanda Guedes
Liquidações funcionam porque 66% das decisões são feitas na própria loja e em menos de cinco segundos depois de avistado o objeto do desejo
Comprar dá prazer. Isso não é novidade. Mas decifrar as razões pelas quais comprar é tão bom é um desafio para os estudiosos do comportamento humano. "Na hora da decisão de compra, os prazeres são muito mais fortes que as necessidades", diz Everardo Rocha, antropólogo, professor da PUC do Rio de Janeiro e autor dos livros Magia e Capitalismo e A Sociedade do Sonho. "E isso independe da classe social." Comprar sonhos – e não meros produtos – é o que realiza as pessoas. A sedução do consumo é um fenômeno mundial. Países que tiveram economia fechada, como os antigos satélites soviéticos na Europa e mesmo o Brasil dos anos 80, abrigam populações fortemente consumistas . "Até hoje, anos depois da abertura econômica, o consumidor brasileiro ainda busca formas de compensar a emoção adiada tantas vezes em compras que ele não pôde fazer", diz Jaime Troiano, sociólogo e consultor de marcas, espécie de assessor que faz uma radiografia completa das marcas. Troiano atua há nove anos nesse mercado, e entre seus clientes estão empresas como Fiat, Elma Chips e C&A. Comprar é um ato de afirmação social. Comprar as mesmas coisas que amigos e colegas de trabalho é uma maneira de ser aceito pelo grupo. "Quem compra, compra para o outro, mesmo sem ter consciência disso", diz Everardo Rocha. "O consumo é a forma mais óbvia de demonstrar inserção num determinado meio, mesmo que ele esteja longe da realidade da pessoa." Na sociedade atual, hábitos de consumo mais refinados ajudam nos relacionamentos, na vida amorosa e até na carreira. Afinal, é dessa necessidade humana de projetar uma imagem acima de suas posses que vivem as marcas exclusivas.
A antropologia do consumo, ciência que começou a ser estudada na Inglaterra nos anos 60, vem explicando os impulsos de compra, especialmente aqueles dirigidos a objetos e serviços supérfluos. "O consumo é um elemento central de nossa sociedade e tem um caráter de diálogo fundamental", afirma Valéria Ravier, professora de antropologia e sociologia da Escola Superior de Propaganda e Marketing e Ph.D. em antropologia do consumo pela PUC de São Paulo. Comprar é participar de uma linguagem coletiva, significa identificar-se com certas tribos e diferenciar-se de outras, dizem os estudiosos. Ou seja, as pessoas buscam afirmação pessoal nas compras. A sensação agradável de comprar é potencializada pelos elogios que outras pessoas fazem às escolhas. "Se as pessoas forem elogiadas e valorizadas pela compra que fizeram, elas se sentirão recompensadas e felizes e vão continuar comprando", explica a psicóloga Maria Cristina Mastopietro, sócia da Sense, empresa especializada em pesquisar hábitos de consumo no Brasil e no mundo. Como todo marido sabe, criticar as compras da mulher é tensão na certa. Os especialistas explicam. Isso equivale a criticar o que elas têm de mais instintivo e pessoal. Equivale ainda a criticar a essência da mulher. Mesmo que as decisões de compra sejam daquela categoria que se pode classificar como instantânea. O Point of Purchase Advertising International (Popai), entidade dos Estados Unidos que estuda hábitos de consumo, aponta que 66% das decisões de compra são feitas na própria loja e em menos de cinco segundos depois de avistado o objeto do desejo instantâneo. No Brasil, segundo estudo do Programa de Administração de Varejo (Provar), da Universidade de São Paulo, cerca de 40% dos consumidores compram mais itens do que haviam planejado. "Os consumidores estão sempre imersos em emoções quando fazem qualquer tipo de compra", diz o consultor Troiano. "São raros os casos de pessoas que fazem compras de forma estritamente objetiva, como se elas fossem equações matemáticas."
Não por acaso, um dos maiores investimentos dos empresários se destina a pesquisas para entender a estrutura mental do consumidor. Claudio Czapski, superintendente da Associação ECR Brasil, entidade que reúne indústrias, varejo e integrantes da cadeia de abastecimento, diz que os grandes casos de sucesso são pontos-de-venda que envolvem o comprador num clima de lazer e entretenimento. O melhor exemplo são as lojas temáticas americanas, como as da Nike, Sony e Disney. Mas o ato de comprar está de tal forma imbricado nos mecanismos de prazer da natureza humana que mesmo as menores transações são satisfatórias. "Pesquisas qualitativas nos mostraram que existem mulheres que se sentem plenamente realizadas em comprar simples produtos de limpeza", conta Maria Cristina, da Sense. "Nesses casos, o prazer vem da valorização que ela terá por manter a casa limpinha e cheirosa."
O CORPO DAS MULHERES é o título do documentário de 25 minutos sobre o uso do corpo da mulher na televisão.
Partimos de uma urgência. A constatação que as mulheres, as mulheres reais, estejam desaparecendo da televisão e estejam sendo substituídas por uma representação grotesca, vulgar e humilhante. A perda nos pareceu enorme: o cancelamento da identidade das mulheres está acontecendo sob o olhar de todos, mas sem que haja uma resposta adequada, até mesmo pelas mulheres. A partir daqui, se abriu caminho para a idéia de selecionar as imagens da televisão, que tivessem em comum o uso manipulador do corpo das mulheres, para contar o que está acontecendo não só a quem nunca assiste a televisão, mas especialmente a quem a assiste mas “não vê”. O objetivo é nos perguntar e questionar as razões para esta supressão, um verdadeiro “massacre”, do qual somos todos espectadores silenciosos. Em particular, o trabalho colocou uma ênfase especial sobre o cancelamento dos rostos adultos da TV, o uso da cirurgia estética para apagar qualquer sinal da passagem do tempo e as consequências sociais desta remoção.
Laranja Azul é um espetáculo ambientada em um hospital público psiquiátrico, onde um jovem negro, internado para observações e tratamento. Vira alvo da divergência de diagnóstico entre dois médicos, trazendo à tona a discussão sobre o preconceito racial e as restrições enfrentadas pelos indivíduos que sofrem de distúrbios mentais, ficando, muitas vezes, à margem da sociedade. O texto é de Joe Penhall.l. e a direção de Guilherme Leme.
De 22 de outubro de 2009 a 3 de janeiro de 2010 Quarta a domingo, às 20h CCBB | Teatro III
Autoilusão dá vida aos Homo sapiens globalizados. Vestígios do passado ainda habitam nosso inconsciente. Descobri-los e superá-los é o caminho para extinguir o autoengano
Por Armando Correa de Siqueira Neto
O homem possui uma imensa dívida consigo mesmo. Trata-se da superação do autoengano, elemento de defesa psíquica que atua em seu socorro cada vez que a verdade se impõe dolorosa. O autoengano provavelmente surgiu nos primórdios do uso do raciocínio, quando o ser humano passou a se perceber sob a luz da razão, levando-o, consequentemente, a sofrer com tal descoberta. Quanto mais adentrava no universo da sapiência, maior era a sua agonia ante a visão animalesca e sombria que tinha de si mesmo. Ele precisou defender-se do mal-estar que lhe invadiu impiedosa e esmagadoramente, desenvolvendo, assim, o jogo da autoilusão; exercitado e aperfeiçoado desde então, chegou à contemporaneidade.
Todavia, ascender ao degrau evolutivo de tal superação requer o rompimento com a etapa infantil na qual grossa parte das pessoas ainda se encontra inconscientemente envolvida, atingindo novo e vital estágio de maturidade. Para tanto, é importante parar de apontar o dedo da culpa para o lado de fora de si e entender definitivamente que há uma responsabilidade pessoal a se assumir integralmente diante das consequências causadas.
Não se pode eliminar, contudo, a autoilusão; dispositivo criado pela sábia natureza. O que se pode fazer é reduzir-lhe a potência por meio da tomada de consciência a seu respeito, minando em graus significativos o seu alcance, penetração e, sobretudo, o controle sobre os pensamentos e emoções, cuja submissão encarcera o ser humano, levando-o a ficar refém inconsciente de si mesmo. O homem crê inocentemente que consegue se autocompreender baseando-se tão somente no nível de percepção que atingiu. Um erro a ser corrigido. Mesmo depois de milênios de evolução, considerando-se o nosso ancestral, o homem de Cro-magnon, originado entre 90 mil e 40 mil anos atrás, e o uso cada vez maior da nova camada cerebral, o neocórtex, pouco se avançou no terreno da consciência pessoal.
Infelizmente, como dominador o homem soube apenas conter o seu próximo, fazendo-lhe mal em graus que variam da simples retenção ao cruel sadismo e, em certos casos, agindo de modo psicopático por meio de comportamentos caracterizados pela frieza afetiva. Foi justamente quando se deu a civilização que, pelos costumes, leis e amparo religioso o homem passou a escravizar o homem.
"Enquanto a responsabilidade não recair sobre si mesmo, a infantilidade permanecerá disfarçada de azar"
Mesopotâmia, China, Egito, Grécia, Roma, América Pré e Pós-colombiana deram a sua aula de escravização com tenebroso primor registrado inequivocamente pelas obscuras páginas da história. Outros registros macabros de dominação vicejam no século XX: os campos de concentração nazistas e os seus 6 milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial, entre tantos outros. Ressalte-se que cada época e local teve sua própria alegação para impor a escravidão ou seus ideais, mas o que se aprecia aqui, todavia, é o fenômeno comum da dominação perpetrado pelo homem.
Dominar a si mesmo, no entanto, faltou em demasia. O autodomínio é uma meta. Mas muita acomodação e má vontade são percebidas em pleno século XXI. O fato é que ainda se vê o ser rude esconder-se atrás da aparência social à espreita de uma oportunidade para mostrar as suas garras afiadas, seja por meio de uma tola desavença, seja por meio de uma discussão no trânsito com estranhos ou nas agressões entranhadas nas relações familiares entre marido e mulher, pais e filhos
Na verdade, se for possível admitir, sem recorrer ao autoengano, mesmo sob a dor da torturante luz do reconhecimento, o bicho ainda está bem solto. Tanto na vizinhança quanto dentro de casa, a pré-história e a história coabitam. A autoilusão faz o seu jogo ao entorpecer as ideias do seu autor, alegando-lhe que os outros são atrasados, e ele, ao contrário, é tão somente uma vítima que se vê obrigada a se defender dos ataques violentos, usando para isso, de igual ou superior violência. Não se reflete, porém, que se é prisioneiro das informações genéticas e, portanto, somente por meio da consciência a esse respeito que se pode evoluir e deixar para trás, gradativamente, o lado natural, grotesco e por vezes perigoso.
Nos escondemos atrás das nossas aparências sociais, aquilo que a sociedade pede que sejamos. Contudo, o selvagem que nos habita pode se manifestar em situações tolas, como em uma discussão no trânsito
Olhando para si mesmo
O entorpecimento psicológico turva a mente daquele que se acomoda e pouco luta em seu próprio favor, pois enquanto houver a crença de que os outros são os culpados pelo tipo de vida que se leva, pouco se andará na direção do crescimento. Enquanto a responsabilidade não recair sobre si mesmo, a infantilidade permanecerá disfarçada de azar e infelicidade. Não é à toa que se tornou famoso o grego Sócrates, que tanto cultivou hutterstocka reflexão (“conhece-te a ti mesmo”) e a análise das equivocadas impressões que temos acerca de nós mesmos e das coisas ao nosso redor, fato este que o levou à sentença de morte (sob a acusação de corromper os jovens, desrespeitar os deuses e violar as leis) por maioria de votos dos 500 atenienses que o julgaram em 399 a.C.
Porquanto o grande objetivo no momento, além de sobreviver, é virar o jogo e passar a dar as cartas. É a superação do Homo sapiens, do salto que se pode dar em vez de se manter nas passadas lentas e frustrantes tão comumente observadas. Da inconsciência acerca daquilo que se crê ser a consciência do que se é de fato. Do autoengano exagerado à noção mais realista sobre si mesmo. Da culpa alheia à responsabilidade pessoal. São atitudes essenciais, sem as quais se emperra o processo da transformação pessoal. Sem enxergar a ferida não procuramos a ajuda necessária. Aceitando-a com a devida clareza, porém, corremos na direção do auxílio. “Você quer mudar e se superar?” Essa não é uma pergunta qualquer e pressupõe análise crítica, profunda, antes que se responda. O ponto central está no fato singular de que somente a pessoa pode se autorizar a autoavaliar-se, optando, por direito (quiçá o dever), ao desenvolvimento em maior escala.
Saiba mais
Sem o autoengano, nossa vida seria extremamente dolorosa. O livro Auto-Engano (Companhia de Bolso) mostra, em uma linguagem acessível, como nos sabotamos para que nossa vida possa ter o encanto que acreditamos que ela tenha. A obra também mostra as mentiras que costumamos nos pregar, o perigo dos excessos e como evitar sofrimento com a autoilusão
Amando Correa de Siqueira Neto é psicólogo, diretor da Self Consultoria em Gestão de Pessoas. Coautor dos livros Gigantes da motivação, Gigantes da liderança e educação 2006. E-mail: selfcursos@uol.com.br
A falta de moral pode ser explicada por meio do desenvolvimento inadequado do "senso ético" no cérebro, mas aspectos socioantropológicos, fatores genéticos e pessoais também colaboram para o surgimento do transtorno de personalidade difícil de ser curado
Por Agência Notisa de Jornalismo Científico
Corrupção, segundo consta no dicionário on-line Michaelis (acesso em 28/7/09), vem do latim corruptione e tem por significados "ação ou efeito de corromper", "decomposição", "putrefação", "depravação", "desmoralização", "devassidão", "sedução" e "suborno". A palavra se tornou comum e mesmo vulgar no vocabulário dos brasileiros após os inúmeros escândalos, envolvendo personalidades e políticos, divulgados pelos meios midiáticos nos últimos tempos.
Porém, a discussão sobre suas causas e origens diverge entre diversos fatores apontados por especialistas. A psiquiatra forense Hilda Morana, coordenadora do departamento de Psiquiatria Forense da Associação Brasileira de Psiquiatria, define o termo no seu sentido social. Para ela, corrupção é "ato de cometer atitudes ilícitas com o intuito de conseguir vantagem financeira ou mais poder". Segundo Hilda, o típico corrupto é "o indivíduo que busca driblar regras em benefício próprio, sem levar em consideração outras coisas que não o próprio benefício".
Ela afirma que esse tipo de comportamento é causado por um transtorno de personalidade, que, especificamente, pode ser definido de forma mais clara como um defeito do caráter. "É o chamado transtorno de personalidade antissocial. O indivíduo que possui o transtorno de personalidade antissocial não foi capaz, ao longo do tempo em que ocorreu o desenvolvimento de seu cérebro, de desenvolver adequadamente o 'senso ético'.
Ele não é capaz de respeitar o outro em sua plenitude, espontaneamente", afirma. Hilda diz que esse distúrbio é causado por falhas cerebrais, mais especificamente, "por falhas do desenvolvimento cerebral em áreas frontais, chamadas suborbitárias, que muitas pesquisas apontam como sendo as regiões do cérebro responsáveis pela formação do 'senso ético', e também da assimilação da moral estabelecida.
Ou seja, é 'um defeito de fabricação'". Se o indivíduo apresenta esse problema em algum momento da vida, muito provavelmente vai morrer com ele, e até mesmo tratamentos modernos contra o transtorno de personalidade não apresentam resultados 100% garantidos na recuperação".
Parentes envolvidos
A especialista acredita que o quadro é parte de um conjunto de outros distúrbios, denominados transtornos de desenvolvimento. Entre eles, Hilda cita o retardo mental, que é um distúrbio que afeta de forma mais ou menos séria as áreas responsáveis pelo desenvolvimento intelectual do indivíduo, e o autismo, que afeta as áreas do cérebro responsáveis pela fala, pela sociabilidade e também pode afetar as áreas responsáveis pelo desenvolvimento intelectual.
"Por sua vez, o transtorno de personalidade provoca uma deficiência no caráter, em decorrência de má-formação das áreas do cérebro responsáveis pela sensibilidade moral", declara. A psiquiatra forense argumenta que, para ela, há poucas dúvidas sobre o caráter herdado do distúrbio. Ela diz que sempre há pelo menos um parente que também está envolvido em alguma operação ilícita ou em alguma trapaça, embuste ou situação similar.
"O caráter herdado da doença é inquestionável. Nem sempre o outro indivíduo afetado é um parente direto, como um pai ou uma mãe. Às vezes um tio, ou primo. Mas é certo que, se o indivíduo apresentou em algum momento esses sintomas, é possível encontrar outros afligidos pelo quadro na família". Para Hilda, a corrupção pode ser diagnosticada a partir do consultório.
Ela explica que é possível determinar a presença do distúrbio por meio do exame Pet Scan, ou tomografia por emissão de pósitrons, e que "o método revela com clareza a área suborbitária afetada pelo distúrbio do desenvolvimento. A gravidade do quadro pode variar muito. A gradação do distúrbio altera entre 'leve' até 'muito grave', e permite enquadrar a maioria dos criminosos e transgressores. Por exemplo, um quadro 'leve' pode se adequar a um oportunista que realiza pequenos delitos. Já um caso muito grave pode representar um político que realize grandes perseguições ou até mesmo um genocídio, como um ditador".
Você aceita a corrupção?
Você considera as situações abaixo aceitáveis, indiferentes ou inaceitáveis? Todas elas são exemplos de práticas corruptas e fazem parte do estudo desenvolvido por Rita Biason e colegas com universitários de três instituições de ensino de São Paulo. A pesquisa foi publicada na revista Probidad (El Salvador) em março de 2008. Veja abaixo os índices encontrados pelos pesquisadores e descubra onde você se encaixa.
Uma pessoa que possui o transtorno de personalidade antissocial tem falhas cerebrais responsáveis pela formação do 'senso ético'. Os especialistas afirmam que ela não é capaz de respeitar os limites do outro espontaneamente
Sem cura
Entre as causas do problema, a psiquiatra aponta o fator genético. Mas, ao mesmo tempo, ela declara que não há apenas um gene responsável pelo quadro, mas uma interação entre genes responsáveis pelo desenvolvimento cerebral. E por outro lado, há também as pressões ambientais.
"A má-formação das regiões suborbitárias do cérebro em decorrência desse distúrbio do desenvolvimento é consequência não só de um gene específico, ou de uma pressão ambiental. É uma interação genético-ambiental, uma associação de genes e 'fatores desencadeadores'. Ou seja, em dois gêmeos univitelinos, existe a possibilidade de que um apresente o problema, e outro não".
"O transtorno de personalidade provoca uma deficiência no caráter, em decorrência de má-formação cerebral"
Quanto ao comportamento do indivíduo afetado, Hilda declara que "o portador do distúrbio tem plena consciência da natureza criminosa e funesta de seus atos, mas não apresenta remorso ou hesitação, exceto quando a ação pode trazer algum mal considerável para ele mesmo. Para ele, vale o 'dane-se o resto'". E acrescenta: "na linguagem popular, é 'safadeza' mesmo, oportunismo, falta de moral, ética e escrúpulos.
Esse personagem é constantemente atraído para situações em que se conhecem possibilidades de obtenção de vantagens diversas com facilidade, e por isso a proliferação desses indivíduos no meio político". Ela declara que "essa situação não é exclusiva do Brasil,percebe-se esse padrão no mundo. Estatísticas recentes apontam que cerca de 15% da população mundial é afetada pelo transtorno. Entre todos os casos, os mais graves, que podem responder por crimes mais sérios, orbitam entre 1% e 2% desses indivíduos. Estes, quase que obrigatoriamente, cometerão atos cruéis de algum tipo: grandes golpes que podem afetar muitas pessoas, torturas, assassinatos bárbaros para obtenção de fortunas, etc.".
Museu da Corrupção
Feito para apresentar todas as páginas negras da política brasileira, o Museu da Corrupção é uma página on-line de informação e de notícias. Lá estão reunidos os maiores escândalos dos últimos anos, vídeos, dossiês, tudo representado de uma maneira satirizada e cômica. Indispensável para quem quer se aprofundar no tema da corrupção http://www .dcomercio. com.br/muco /home.htm
A psiquiatra lamenta que não existam medicamentos com resultados satisfatórios contra o transtorno. "Alguns até apresentam efeitos moderados e podem mesmo melhorar o funcionamento da região afetada, mas nunca acabar com o comportamento patológico", diz. Para ela, uma solução adequada para o problema é "o fim da permissividade excessiva para com a corrupção política".
Hilda afirma que "o portador do transtorno conhece as consequências possíveis de seus atos, para ele mesmo, mas a impunidade estimula esse indivíduo a praticar o ato, porque ele é capaz de 'pesar' os benefícios e revezes que a ação ilícita pode trazer".
Apesar do transtorno de personalidade ser um fator genético, gêmeos univitelinos podem apresentar diferenças nesta questão. Isso porque há a interação ambiental como fator potencializador do problema
Virada da infância
Já João Augusto Figueiró, médico e psicoterapeuta do Hospital das Clínicas da USP, corrobora em muitos aspectos com a colega forense, mas acredita em uma causa multifatorial e, principalmente, em menos determinismo.
"A corrupção política, policial, tem a ver com a formação insuficiente da moralidade, mas não necessariamente com a presença de um distúrbio de personalidade. As práticas corruptas normalmente são realizadas por indivíduos com falhas nos ditos 'sentimentos morais', na ética e na preocupação pelo bem-estar alheio".
Figueiró explica que a região do cérebro responsável pelos sentimentos morais é "o chamado 'cérebro moral', que é composto pelo lobo pré-frontal, pelo sistema límbico e por uma porção do lobo temporal". Ele atesta que, quando essas regiões sofrem um desenvolvimento adequado, na juventude, o indivíduo em questão poderá apresentar comportamentos considerados adequados.
Para ele, esse desenvolvimento se dá por meio da interação do cérebro com o ambiente, ou seja, pela interação entre o que foi herdado pelo sujeito e as pressões ambientais. O psicoterapeuta diz que esse processo ocorre principalmente nos primeiros anos de vida, quando já são observados padrões de comportamento moral.
Ele declara que "já no primeiro ano pode ser observada alguma reação 'moral' a expressões do sofrimento alheio. Entre os 3 e 5 anos de vida, ocorre uma virada que evidencia preocupações legítimas com o outro, sentimentos de culpa e anseio por reparações. Essa virada pode ser explicada como uma 'virada para a empatia', ou a capacidade de se identificar com o outro".
Acredita-se que o portador de transtorno de personalidade seja estimulado a cometer atos ilícitos graças à impunidade política. A falta de punição severa desencadeia a permissividade excessiva a quem é suscetível a esse transtorno
De acordo com o especialista, indivíduos que não passaram por esse processo de forma saudável podem sofrer de deficiências no cérebro moral. Essa deficiência provoca o transtorno de personalidade. Segundo ele, "esse quadro resulta de uma interação negativa entre o que foi herdado pelo indivíduo (seus genes) e o ambiente, ou seja, de uma interação nociva entre sua constituição cerebral e as pressões ambientais.
Essas pressões ambientais podem ser provenientes de uma criação muito permissiva ou de limites morais e éticos muito frouxos". Assim como a psiquiatra forense Hilda Morana, João Augusto aponta que existe um transtorno que caracteriza a maioria dos corruptos: "é o transtorno antissocial, que torna o portador um indivíduo sem limites morais e éticos, quando se trata de obter vantagens diversas. Há também o transtorno narcísico, mas geralmente este caracteriza o indivíduo extremamente egocêntrico, que nem sempre é corrupto".
"uma característica do antissocial é a dificuldade de se identificar com os sentimentos dos outrosde"
O psicoterapeuta explica que "uma característica do antissocial é a dificuldade de se identificar com os sentimentos dos outros, como os assassinos, chefes políticos cruéis ou indivíduos que desviam grandes quantidades de recursos do país, possivelmente prejudicando muitas pessoas". Segundo ele, na infância, não existem transtornos de personalidade, propriamente ditos.
Existem transtornos de conduta, que podem, com a idade adulta, evoluir para os transtornos de personalidade. "Entre eles estão as proverbiais maldades das crianças contra os animais e as intrigas elaboradas, feitas para prejudicar colegas intencionalmente. Mas nem todos que apresentam esses transtornos de conduta desenvolvem transtornos de personalidade", alivia. O especialista igualmente afirma não existir cura para o transtorno de personalidade antissocial.
"O grande problema é que isso não tem cura e o portador nunca busca tratamento. A única forma de combater o quadro são medidas de contenção externas, como a vigilância e a punição. Em situações onde os delitos praticados são punidos de fato, os portadores do transtorno tendem a se portar melhor", avisa.
Para João Augusto, vale lembrar que "apesar dos problemas referentes ao transtorno antissocial, indivíduos 'normais' também podem ser corruptos. Tudo depende dos ambientes nos quais estão inseridos. Ambientes extremamente permissivos e com acesso a muito poder, marcados pela impunidade, que são típicos da paisagem política brasileira, normalmente favorecem o surgimento do personagem corrupto".
O desenvolvimento não adequado da região cerebral responsável pelos sentimentos morais pode causar falha no senso ético. Um exemplo comum é a prática de bulliyng na adolescência e infância
Tolerância mil
Você considera aceitável que um guarda de trânsito não multe um motorista porque ele conta que cometeu a infração em função de uma emergência? Mais da metade de um total de 269 entrevistados considera que sim.
Esta foi apenas uma das situações simuladas pela professora Rita Biason, professora da Unesp, do Campus de Franca, cientista política e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre a Corrupção, e por colegas durante uma pesquisa realizada com estudantes universitários de três instituições de ensino superior do Estado de São Paulo que buscou avaliar o impacto da corrupção e a percepção dos universitários sobre o tema e ainda seus valores em relação ao assunto.
"Há grande dificuldade para criminalizar a corrupção, ou seja, demonstrar por meio de provas o ato corrupto"
O exemplo é um caso de suborno em que há implicação emocional. Os pesquisadores afirmam no artigo publicado em 2008 na revista Probidad que quando se trata de questões pessoais, o público tende a demonstrar maior tolerância. Por outro lado, muitas pessoas mostram-se mais sensíveis à corrupção que envolve órgãos públicos, principalmente no que se refere ao nepotismo e à compra de votos. (Veja quadro Você aceita corrupção?).
Entretanto, a compra de votos não é vista como algo inaceitável por todos os segmentos da população. Segundo Rita Biason, em outro estudo realizado, ela identificou que a classe socioeconômica que recebe até três salários mínimos não vê problema em trocar o voto pelo saco de cimento, pela consulta médica e outros bens ou serviços. "Isso remete à necessidade, o sujeito precisa do saco de cimento embora haja aqueles indivíduos que tripudiam o coletivo, que exageram nas solicitações e muitas vezes sem necessidade.
Essa população tem vivido um ciclo de dependência dos programas do governo - Bolsa Família, Leve Leite entre outros. São ações que acabam não resolvendo a questão, mas sim criando uma dependência e sob certo aspecto reforçando a prática de corrupção. O problema não são os programas governamentais propriamente ditos. Ocorre que perguntamos para as pessoas: você considera aceitável ou inaceitável receber uma Bolsa Família mesmo sem necessidade? A grande maioria aceita receber. Há, portanto, um dilema ético que só aparece a partir do momento em que o aguçamos", destaca.
Público e privado
Mas, segundo Rita, o principal fato verificado na pesquisa é que todas as classes sociais praticam corrupção. "Temos dificuldade de dizer 'não' à corrupção no Brasil porque não conseguimos distinguir o público do privado. Os exemplos que temos tido ao longo dos anos reforçam a ideia de que o público é algo que pertence ao indivíduo, e somente ele pode usufruir. A forma como a maioria dos agentes públicos - eleitos ou não - se comporta no Brasil, especificamente sobre a 'coisa pública' é lamentável e contribui para reforçar esta situação", afirma.
Falta de pai
Para Laura Ward da Rosa, membro titular da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, psicanalista e professora do Curso de Pós-graduação em Psicanálise e Educação da UniRitter, de Porto Alegre, a corrupção sempre existiu, porém no mundo contemporâneo ganhou traços mais visíveis e sua manutenção está relacionada a um déficit de atuação das instâncias paternas.
Ela afirma que a saída da mulher para o mercado de trabalho foi um dos fatores que corroborou para uma mudança na estrutura familiar. "Há uma grande perda de limites na situação atual, até mesmo no campo da política. A família de hoje ganhou certo espraiamento com relação à questão da autoridade, as crianças opinam sobre coisas que não devem opinar, a adolescência se antecipou e seu final foi retardado.
Há uma perda de autoridade e falta de limites que contribuem para a criança crescer pensando que pode tudo. Pode escolher tudo: brinquedo, alimento. Tudo é muito liberal, sem um critério do mais conveniente e adequado a cada faixa etária. Há uma perda de valores ao longo do processo de desenvolvimento desde a infância, passando pela adolescência e chegando à vida adulta. As relações amorosas são muito frágeis, as pessoas não querem se comprometer. Não há criação de um vínculo firme, seguro. As pessoas não se comprometem no trabalho, na vida amorosa, na política e tampouco na educação", afirma a psicanalista.
Há tempos atrás o slogan da campanha de Paulo Maluf (ex-governador do Estado e duas vezes prefeito da cidade de São Paulo) - "Rouba, mas faz" - chamou a atenção da sociedade. Porém, como explica Rita Biason, esse slogan foi criado por Adhemar de Barros, duas vezes governador do mesmo Estado (décadas de 1940 e 1960). Para a cientista política, campanhas desse tipo já criaram um tom jocoso e políticos adeptos dessa prática perderam muito espaço, uma vez que muitos estão sendo processados.
No entanto, para a psicanalista Laura Ward da Rosa, há por trás dessas condutas uma condição de psicopatologia. "Elementos mais perturbados tendem a imitar esses padrões, acreditando que tais posturas são corretas. Funciona como um espelho.
Pessoas com déficit absorvem padrões de desvios éticos", afirma. Ela reforça que na conduta psicopatológica não existe culpa. O sujeito não se deprime e considera o que está fazendo como algo correto. "Precisamos ter pessoas de cabeças sadias para liderar uma mudança", afirma.
Tudo às claras
O consultor de empresas e conferencista Stephen Kanitz realiza seminários em grandes empresas no Brasil e no exterior. Mestre em Administração de Empresas pela Harvard University, foi professor Titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo e é mantenedor do site http://www. kanitz.com.br. Lá, é possível ter acesso a seu texto O que é corrupção, com passagens polêmicas como "somos, sim, um país onde a corrupção, pública e privada, é detectada somente quando chega a milhões de dólares e porque um irmão, um genro, um jornalista ou alguém botou a boca no trombone".
Percepção do erro
Mas a percepção da corrupção parece ainda estar relacionada a outros fatores. Segundo Eduardo Salcedo-Albarán, filósofo pela Universidad del Rosario, Bogotá, Colômbia, e coordenador da área de Metodologia do Método - Transdisciplinary research group on social sciences -, a identificação de uma vítima de um crime público de corrupção exige a elaboração de relações causais complexas por parte do cérebro "Em alguns crimes é fácil identificar a vítima, e quando é o caso, uma relação causal simples permite ligar o crime atual à vítima.
É chamado de 'fácil', porque o cérebro tem de conectar poucos eventos para conectar o crime à vítima. Por exemplo, se você está andando em uma rua e vê que uma pessoa foi baleada e, momentos depois, essa mesma pessoa morre - você apenas precisa ligar os dois eventos. O cérebro é muito eficiente quando conecta poucos eventos.
Além disso, quando conectamos um par de eventos envolvendo a percepção de emoções, o cérebro reage muito rápido, também com respostas emocionais originadas em áreas emocionais. Elaboração de relações causais simples sobre reações de empatia são geralmente automáticas, mas não relacionadas com capacidades cognitivas sofisticadas. Aquelas áreas emocionais, aquelas do cérebro primitivo, reagem mais rápido do que áreas relacionadas a capacidades cognitivas de alto nível, como lógica rígida e argumentação.
Nesse sentido, em crimes públicos de corrupção, essas áreas relacionadas com capacidade cognitiva devem ser usadas. Por exemplo, se você paga um suborno, não está claro quem será afetado pelo seu ato e, por isso, é fácil pensar que não há vítima. No entanto, se pensar cuidadosamente, usando capacidades cognitivas e elaborando uma relação causal complexa, você achará a vítima do seu crime", explica Eduardo.
Segundo o filósofo, existem basicamente duas grandes áreas no cérebro: o interior do cérebro, chamado de cérebro primitivo, e o neocórtex. Assim, enquanto emoções e sentimentos são originados no cérebro primitivo, o córtex externo ou neocórtex - área que apareceu mais recentemente na evolução do Homo sapiens - está relacionado à racionalidade, lógica, argumentação e, em geral, às capacidades cognitivas.
Neurônios espelho
Eduardo explica que além desses processos causais cerebrais, acredita que haja outro mecanismo envolvido: a inativação de neurônios espelhos. "Na verdade, é uma questão empírica que ainda precisa ser confirmada por exames de imagem", diz. O pensador explica que testou a hipótese de que neurônios espelho relacionados à empatia e a emoções sociais não são ativados quando ocorre um crime de corrupção pública.
Para tanto, ele apresentou relatos de corrupção para um grupo de pessoas e analisou suas reações. "Quando liam uma história pequena de corrupção e não dávamos informação sobre as vítimas, elas tendiam a pensar que o ato de corrupção não estava completamente incorreto em termos morais, precisamente, porque 'ninguém estava sendo prejudicado'.
Mas quando dávamos informações sobre a pessoa que estava sendo prejudicada pelo ato de corrupção, as pessoas tendiam a dizer que aquela ação é moralmente incorreta. Em termos gerais, quanto mais se sabe sobre a pessoa em particular que está sendo prejudicada pelo ato, mais neurônios espelho relacionados à empatia e a emoções sociais provavelmente serão ativados", considera
Na infância, os transtornos de personalidade são conhecidos como transtornos de conduta. Assim, costumam maltratar animais e criar intrigas entre colegas a fim de prejudicar alguém intencionalmente
O que os olhos não veem...
Eduardo diz que emoções mais poderosas de empatia social surgem quando se pode ver a vítima e, mais forte ainda, se é possível ver a face da vítima. Ele conta que o psicólogo Paul Slovic, do Decision Research Institute, tem estudado essa questão para genocídio e tem observado que mais emoções de empatia surgem quando você conhece sobre, por exemplo, um menino que deve ser resgatado, quando vê sua face e sabe sobre sua vida, do que quando lhe contam que 20 pessoas foram assassinadas.
O pesquisador explica que, emocionalmente, não somos sensibilizados pelo número 20 tanto quanto somos sensibilizados ao ver a face do menino. Para Eduardo, há uma carência de estudos que relacionem corrupção com neurociência. Em sua opinião, cientistas sociais e neuropsicologistas deveriam trabalhar em conjunto.
Entretanto, ele destaca que cientistas sociais geralmente pensam que a inclusão de genes, cérebro e biologia no entendimento dos comportamentos humanos pode levar ao determinismo biológico ou eliminar o poder das variáveis culturais.
Especialistas não acreditam em cultura da corrupção, mas culpam o Judiciário por não criminalizar a corrupção, em outras palavras, de não provar o ato corrupto
Cultura da impunidade?
Segundo a cientista política Rita Biason, a Carta de Pero Vaz de Caminha já continha indícios de corrupção, pois o autor pede emprego ao rei para um parente. Ela diz que no Brasil Colônia também há vários relatos do crime na obra Arte de Furtar. Entretanto, considera imprudente demonstrar que a corrupção no Brasil é um dado histórico.
"Se for esta a lógica, não podemos fazer mais nada, teremos uma situação de imobilismo, passividade e aceitação. Dizem que há uma cultura da corrupção, mas não creio nisso. Para mim, há uma cultura de impunidade", destaca. Para a professora, o ponto mais vulnerável hoje para a manutenção da corrupção é o Judiciário.
"Há uma dificuldade muito grande para criminalizar a corrupção, ou seja, demonstrar por meio de provas o ato corrupto", diz. Nesse sentido, Rita afirma que o Ministério Público de São Paulo, por exemplo, hoje consegue condenar mais agentes públicos eleitos por meio da Lei de Improbidade Administrativa (LIA) do que pelo Código Penal. "Isso porque pela LIA, as provas costumam ser mais evidentes e juridicamente eficientes.
No Código Penal, há algumas vulnerabilidades que dificultam a condenação", afirma. Para ela, o ajuste nesse dispositivo iria agilizar a criminalização e diminuir a sensação de impunidade entre a população. Entretanto, a pesquisadora ressalta que a corrupção não é eliminada. "Este problema estará apenas sob controle, não há forma de suprimi-lo. Os países desenvolvidos não são menos ou mais corruptos do que o Brasil, apenas possuem mecanismos de controle eficazes e punição rápida.
Em geral, na América Latina podemos observar que a década de 1990 trouxe mudanças importantes. Se tomarmos o Índice de Percepção da Corrupção (IPC) da Transparency International é possível observar avanços e recuos da corrupção na Colômbia, na Costa Rica, no Uruguai, na Argentina e no Chile. São países que passaram por problemas semelhantes aos do Brasil com governos militares seguidos de democracia", considera.
"Para alguns especialistas, há uma carência de estudos que relacionem corrupção à neurociência"
Rita lembra que o pesquisador Treisman afirma que em novas democracias, as práticas de corrupção somente serão superadas após 40 anos de Estado democrático. "A boa notícia é que já vivemos 20 anos dos 40. O aprimoramento significa a criação de instituições capazes de controlar os processos internos, como tribunais de justiça, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Tribunal de Contas da União (TCU) e conselhos e comissões de ética. Eu sou otimista porque vejo muitos países em que não há nem divulgação dos casos de corrupção e nem movimentação para investigar e denunciar atos ilícitos. Nesse sentido, nós avançamos muito", destaca
Opinião própria, manipulação eleitoral, consciência, impulso, identidade coletiva, ideologia: o que motiva a escolha do nossos votos?
Por Agência Notisa de Jornalismo Científico
Enquanto você permanece em dúvida sobre em quem votar nas próximas eleições, especialistas em comportamento eleitoral no Brasil e em outras partes do mundo neste momento já elaboram estratégias para entender como funciona seu processo de decisão. A Psicologia Política, disciplina que desenvolve estudos desse tipo, sistematicamente vem apresentando novos dados sobre diferentes processos de subjetivação para a escolha do voto. Com base em conceitos psicossociológicos como identidade social, consciência social e identidade coletiva, o resultado dessas investigações ajuda no trabalho daqueles que moldam estratégias de persuasão em campanhas de candidatos a cargos políticos e também explicam aos pesquisadores como certos conceitos refletem nas relações entre os grupos sociais.
Nas eleições de 2002, as ideologias de Serra e Lula eram claramente antagônicas
“O comportamento de votar tem sido estudado no campo da Psicologia Política por muitos anos, e ele é visto não como um comportamento individual, mas sim como um comportamento mediado por elementos subjetivos, como, por exemplo, as crenças, as representações sociais, os afetos associados a tal ato, a história de vida”, explica Marco Aurélio Maximo Prado, professor do Núcleo de Psicologia Política (NPP) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Segundo ele, a relação entre ideologia e participação não pode ser analisada desconsiderando esses aspectos subjetivos que constituem o pensamento, a ação e as emoções humanas.
É com esse objetivo que Salvador Sandoval, um dos precursores do estudo da Psicologia Política no Brasil e coordenador do Núcleo de Psicologia Política e Movimentos Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), mostra que a busca pela compreensão do comportamento dos eleitores pode ser ponderada por perguntas bastante corriqueiras: “por que o indivíduo decide seu voto pelo santinho dado na fila para votar?”; “o santinho define de fato seu voto?”; “será que o santinho faz com que ele decida seu voto simplesmente por ir com a cara do candidato ali impresso?”; “ou o santinho apenas reforça uma opinião anterior à escolha do voto?”.
Salvador lembra que, no entanto, questionamentos como esses nem sempre possuem respostas imediatas. Na maioria das vezes, demandam constante investigação, uma vez que, se a Psicologia Política investiga os mecanismos subjetivos do voto, outras disciplinas, como a Ciência Política e o estudo da opinião pública, delimitam a conjuntura política do período analisado. Crises institucionais, crescimento econômico e políticas públicas também são tidos como fatores de grande importância no processo de escolha do candidato e, se não moldam o que muitos teóricos chamam de ideologia, são interiorizados pelo indivíduo como valores, corretos ou não.
INFLUÊNCIA DO VOTO: IDEOLOGIA E VALORES SOCIAIS Yan de Souza Carreirão, professor do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em artigo publicado na edição de maio de 2002 da revista Opinião Pública, considera ideologia como um fator influente na decisão do voto para presidente. Partindo do conceito de identidade ideológica formulado pelo cientista político André Singer, Carreirão mostra que “identificação ideológica é a adesão a uma posição no contínuo esquerda-direita ou liberal-conservador que, mesmo sendo difusa, isto é, cognitivamente desestruturada, sinaliza uma orientação política geral do eleitor”.
"MESMO COM A DEMOCRATIZAÇÃO, A GRANDE BUROCRATIZAÇÃO DO SISTEMA AINDA IMPEDE MAIS PARTICIPAÇÃO DO ELEITOR"
No artigo Identificação ideológica, partidos e voto na eleição presidencial de 2006, de sua autoria, publicado na edição de novembro de 2007 da mesma revista, Carreirão exemplifica essa posição, partindo da idéia de que, no decorrer do primeiro mandato do presidente Lula, houve um processo de diluição da ideologia entre os diferentes partidos que compõem a esfera política brasileira. Isto é, se nas eleições de 2002 os candidatos Lula e José Serra se colocavam em posições antagônicas em termos ideológicos, em 2006, ideologia político-partidária não contou como sendo um dos fatores preponderantes na reeleição de Lula.
Diante disso, resta aos especialistas compreender o que é determinante no posicionamento do eleitor e em sua identificação com conceitos como direita e esquerda, conservador e liberal. Para o próprio André Singer, que, além de cientista político, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), jornalista e ex-porta-voz da Presidência da República, a formação de um quadro ideológico individual é um processo singular. Segundo ele, a formação ideológica é a construção de um pensamento mais ou menos autônomo que depende do processo cognitivo que cada um percorre, sendo que sempre é decorrente de um diálogo com aquilo que o meio apresenta. “É claro que cada indivíduo pode chegar a conclusões singulares dependendo daquilo que experimentou”, reitera.
Singer classifica a ideologia como um sistema abrangente de organização das crenças norteado por categorias abstratas, e que tenta organizar as demais questões que aparecem no universo social a partir desses critérios. Ele diz que somente um grupo limitado de eleitores possui essa organização ideológica do pensamento. “Normalmente, a maioria das pessoas tende a organizar o pensamento com base em coisas concretas e mais fragmentadas”, afirma.
A consciência política se forma a partir de um conjunto de elementos que se articulam e que permitem um pensamento em constante transformação
CONSCIÊNCIA POLÍTICA Essas “coisas concretas e fragmentadas”, assim como o processo de abstração que leva à formulação da ideologia, são de particular interesse para Alessandro Soares da Silva, psicólogo político e professor da graduação em Gestão de Políticas Públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo (USP). Em artigo publicado no primeiro semestre de 2007 no periódico Estudos e Pesquisas em Psicologia, ele chama a atenção para sete dimensões psicossociológicas prevalentes na literatura científica, que, segundo ele, formam o processo da consciência política.
Valores morais associados às polêmicas do dia-a-dia, como aborto, uso de camisinha, relações homossexuais, podem direcionar o voto
Essas dimensões se constituem em identidade coletiva, crenças e valores societários, sentimentos de interesses coletivos e identificação de adversários, sentimentos de eficácia e de ineficácia política, sentimentos de justiça e injustiça, vontade de agir coletivamente e metas e propostas de ação coletiva. Soares da Silva explica que, dessa forma, a consciência política não é apenas uma reflexão inerte sobre a sociedade e como os sujeitos se relacionam com ela. É, na verdade, um conjunto de elementos que se articulam e que permitem o desenvolvimento de um pensamento em constante transformação.
Por um outro lado, de acordo com a abordagem da Ciência Política, a ideologia surge como resultado daquilo que seus teóricos chamam de socialização política. Tal processo, segundo André Singer, acontece durante a fase da vida do indivíduo que fica entre o final da adolescência e o início da vida adulta, quando ele adquire noções fundamentais entre valores morais e éticos e tem uma visão de mundo que acaba tendo reflexos na sua maneira de encarar a política. Como esse processo acontece em um período anterior ao exercício do voto, considera-se a família como transmissora de posições e valores ou como fonte de antagonismo. “O mais freqüente é encontrar uma reprodução que está no âmbito da família, embora o oposto também não seja tão raro”, complementa Singer.
Os cinco traços da personalidade do eleitorado ocidental
O caso alemão A Psicologia Política preconiza que traços de personalidade são fatores importantes para explicar o comportamento da elite política. Uma dupla de pesquisadores da Johannes Gutenberg–University Mainz, na Alemanha, investigou a hipótese de traços de personalidade influenciarem no entendimento das atitudes políticas e dos processos de decisão, dessa vez, de indivíduos comuns. A confirmação de que esses traços têm impacto nas atitudes partidárias e na escolha do voto foi publicada na Political Psychology de agosto de 2007, no artigo em que os pesquisadores afirmam que as cinco mais importantes dimensões da personalidade — abertura mental (abertura à experiência, criatividade), conscienciosidade (correção, escrúpulo), neuroticismo (afetos negativos), extroversão (avidez por contato, adaptação ao ambiente) e socialização (possuidor de sentimento coletivo) — exercem papel importante nesse entendimento.
Abertura mental, segundo o estudo, torna os cidadãos mais inclinados a apoiar partidos ligados ao social liberalismo, enquanto baixos escores de conscienciosidade e altos graus de socialização aumentam a probabilidade de gostar e votar por esses partidos. Por sua vez, altos níveis de neuroticismo correspondem a indivíduos mais inclinados a apoiar partidos que oferecem abrigo contra dificuldades materiais ou culturais.
Para ilustrar seus argumentos, os pesquisadores observaram o efeito da abertura mental no voto entre os partidos Verde e Social-Democrata. Os Verdes, que formaram um governo de coalizão com o Partido Social-Democrata (SPD) à época, foram fortemente favorecidos por indivíduos marcadamente relacionados à abertura mental, já que essa qualidade é típica de quem vota no SPD. O efeito da conscienciosidade foi semelhante, com grandes escores desse traço entre os eleitores do SPD e baixos entre os Verdes. “Esses resultados sugerem que a diferença nos efeitos de personalidade reflete políticas diferentes entre o SPD e os Verdes; o primeiro aparece como um partido tradicional de esquerda e o segundo um partido de nova esquerda com foco primordial na agenda social”, explica a dupla.
Os empreendedores do estudo também compararam esse cenário com o cenário italiano, pesquisado em 1999 com Caprara e colegas. “Nossos resultados, quando comparados com a Itália, mostram que altos escores para abertura mental e socialização e baixos escores para conscienciosidade estão relacionados com eleitores mais inclinados em votar em partidos de esquerda”, ilustram. No entanto, enquanto neuroticismo apresenta efeitos consideráveis nas atitudes partidárias e na escolha do voto na Alemanha, na Itália esse traço não é relevante na escolha de partidos entre a centro-esquerda e a centro-direita. Em contrapartida, extroversão, na Itália, é de grande influência no voto para partidos de centro-direita, enquanto na Alemanha não.
O caso norte-americano Partindo do princípio que indivíduos são atraídos por seus semelhantes, estudo publicado na edição de outubro de 2007 da Political Psychology mostrou que pessoas viam sua própria personalidade como sendo similar àquelas dos candidatos em quem votavam. “É possível deduzir que eleitores projetam em seus candidatos preferidos as características de sua personalidade que são mais marcantes e que eles mais valorizam, ou que eleitores são atraídos por candidatos que mostram características de personalidade que eles mais valorizam”, diz o artigo.
Traços de personalidade, prossegue o estudo, permitem que eleitores estabeleçam suas impressões sobre políticos e que vinculem as personalidades diferenciadas desses políticos às suas próprias personalidades. “São esses os elementos a partir dos quais o princípio da atração pela similaridade opera na política”.
Em um exemplo concreto, investigado pelos pesquisadores, eles revelam que, nas eleições presidenciais americanas de 2004, eleitores de John Kerry, do Partido Democrata, mostraram maior grau de abertura mental que os que preferiram Bush. Kerry também apresentou escores particularmente altos de abertura mental, à semelhança de seus aliados. A similaridade entre Bush e seus eleitores foi particularmente alta na socialização, encerrando características como sincero e leal, e conscienciosidade. Os pesquisadores observaram, no entanto, que essa similaridade não foi tão clara quanto aquelas ligadas a Kerry. Em se tratando de uma reeleição, “é razoável pensar que Bush foi beneficiado por um certo tipo de inclinação positivista que leva as pessoas a esperarem que o presidente dos Estados Unidos seja honesto, leal e inspire confiança”, notam.
O estudo também indicou que socialização é o traço que as pessoas mais projetam nas outras. Dessa forma, segundo o artigo, é possível esperar que, se as pessoas tendem a se apresentar com taxas altas em socialização, atribuindo-se especificamente características positivas como leais e sinceras, elas tendem a preferir políticos com esses traços. Não à toa, socialização e conscienciosidade são os traços que as pessoas mais negam ao oponente.
MORAL E ÉTICA Buscar entender o comportamento eleitoral como uma derivação de conceitos morais e éticos também é uma alternativa, embora alguns especialistas sejam cautelosos ao buscar correlações genéricas. Não só porque conceitos como ética e moral são bastante diferenciados entre diferentes países, mas também pelo fato de os sistemas político-eleitorais, mesmo aqueles pautados na democracia representativa, serem radicalmente diferentes.
Estudo empreendido por pesquisadores da Universidade de Illinois e da Universidade Northwestern publicado na primeira edição de 2008 do periódico Political Psychology procurou entender como valores morais associados às polêmicas do dia-a-dia motivaram as pessoas a votar nas eleições presidenciais dos EUA em 2004. Eles também investigaram se a ênfase nesses valores pesou decisivamente para a vantagem eleitoral republicana conservadora.
De acordo com os autores, alguns conselheiros políticos estadunidenses intuitivamente se agarraram à noção de que moralidade é um estímulo importante para a mobilização dos eleitores. Há evidências de que a persuasão moral ativaria formas específicas de afeto, como a sensação de nojo. “Wheatley e Haidt (2005) descobriram que induzir as pessoas a sentir nojo em resposta a palavras neutras as levou a julgar como moralmente condenáveis atos descritos com tais palavras comparativamente com aquelas que não foram induzidas a isso”, exemplificam.
Desse modo, Skitka e Bauman focam seu estudo no retorno que as atitudes moralizantes produzem, mais que a moral em si, para efeito eleitoral. Ambos argumentam que o conceito de moral e sua influência são questionáveis, já que poderiam facilmente alegar que é impossível dizer se decisões sobre a guerra no Iraque e sobre a economia do país são mais ou menos arraigadas em preocupações morais que decisões sobre aborto ou casamento gay. “Por exemplo, uma pessoa pode apoiar o aborto porque ele permite uma rede de segurança contra gravidez indesejada e não porque ela sente alguma conexão moral em particular ao proteger a autonomia feminina. Ao mesmo tempo, pessoas podem se opor ao aborto porque as autoridades da igreja disseram que elas deveriam, sem necessariamente ter qualquer vínculo pessoal ou moral sobre a questão”, ilustram.
O artigo ainda apontou que “três de três testes mostraram que convicção moral associada a tópicos do dia-a-dia — aborto, casamento gay, guerra no Iraque — explicaram uma variação singular nas intenções de voto e na preferência pelos candidatos”. As convicções morais e polêmicas da agenda política foram decisivas para níveis altos de engajamento político sobre ambos os candidatos — George W. Bush pelos republicanos e John Kerry pelos democratas, refletindo no comportamento dos eleitores e suas intenções até as urnas.
Na realidade brasileira, moral e ética tomam formas distintas. O psicólogo político Salvador Sandoval prefere pensar que a moral permeia o pensamento das pessoas julgando ideologias sob perspectivas de regras morais. A ética, por sua vez, é uma sistematização da idéia da moralidade. “As raízes da ética estão em ideologias; o que é certo e errado vai em compasso com a ideologia. A moralidade, no entanto, está relacionada às relações sociais”, assinala.
Historicamente, a esquerda é quem hasteia a bandeira da moral na política, postura que já a deixou em apuros algumas vezes
São nas implicações éticas da ideologia que residem as observações do cientista político André Singer. “É comum a determinadas posições que estão à esquerda e à direita uma valorização do que podemos chamar de ética republicana no trato das questões públicas. Isso não é um monopólio ético da esquerda ou da direita”, pontua. Por outro lado, segundo ele, tendo em vista que as formulações entre esquerda e direita são filosoficamente diferentes, é natural encontrar diferenças éticas entre elas. “De um ponto de vista de esquerda, graus extremados de desigualdade são tidos como não-éticos, enquanto, no caso de uma formulação de direita, não seria bem assim”, complementa.
"AS RAÍZES DA ÉTICA ESTÃO EM IDEOLOGIAS; A MORALIDADE, NO ENTANTO, ESTÁ RELACIONADA ÀS RELAÇÕES SOCIAIS"
O psicólogo político Marco Aurélio Maximo Prado segue por esse mesmo raciocínio e acredita ser extremamente importante a diferenciação entre esquerda e direita para que se ressalte que o que cada vez mais distingue uma posição da outra é a hierarquia na qual são posicionados os valores da igualdade e da liberdade, da participação e da representação. “Mas não me parece que a diferenciação entre esquerda e direita pode ser feita a partir de preceitos morais ou éticos”, acentua.
Para Alessandra Aldé, professora da Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), cientista política e pesquisadora associada do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), historicamente, salvo raras exceções, a esquerda é quem hasteia a bandeira da moral na política. “Ela reivindica um discurso que, além de político, é também moral, ao afirmar que seu projeto é mais nobre, que é qualitativamente superior”, afirma.
Alessandra nota que essa postura de superioridade moral, na prática, já deixou a esquerda em apuros algumas vezes. Ela lembra que a bandeira da ética, historicamente reivindicada pelo Partido dos Trabalhadores, foi tanto o que ajudou Lula a se eleger, em 2002, como foi o que o fez perder votos, no primeiro turno de 2006. Por outro lado, também é comum à esquerda certa resistência em fazer concessões a estratégias políticas. “O marketing político e a comunicação política estratégica estão mais associados à direita, assim como a formulação de alianças oportunistas; todos eles não são dilemas éticos dessa ideologia”, explica.
"A CONSCIÊNCIA POLÍTICA É O CUNJUNTO DE ELEMENTOS QUE SE ARTICULAM E QUE PERMITEM DESENVOLVER UM PENSAMENTO EM CONSTANTE TRANSFORMAÇÃO"
No México, país da América Latina com tradição republicana democrática, pesquisadores buscaram identificar entre suas diversas forças político-partidárias percepções ideológicas estereotipadas. O estudo, publicado na edição 33 de 2006 do periódico Psicología Política, constatou que a relação entre estereótipos e ações políticas procede, mas somente nos grupos de esquerda, nos quais também se identificou maior identificação partidária.
A proporção de leitores que manifestaram preferência por algum partido variou entre 41% e 54% do eleitorado nacional
“O estereótipo que se tem sobre a Esquerda Mexicana se associa a condutas como: participar de reuniões, comitês e assembléias, cumprir e formular propostas, sem a necessidade de deixar a militância ou trocar de partido”, afirmam os pesquisadores. Esse estereótipo, segundo o artigo, foi reforçado principalmente devido ao período eleitoral de 2006.
A pesquisa também mostrou que, enquanto os grupos políticos se identificavam internamente como atualizados, conhecedores dos problemas nacionais, cultivadores da democracia, percebiam ao mesmo tempo os demais grupos como desonestos, corruptos e agressivos. Os pesquisadores acreditam que os resultados obtidos sobre as percepções ideológicas das tendências políticas mexicanas permitem corroborar com a idéia da existência de favoritismo endogrupal, em que os simpatizantes mantêm uma identidade partidária positiva, de acordo com preceitos morais estereotipados.
PARTIDOS POLÍTICOS O periódico Dados, em sua primeira edição de 2004, publicou pesquisa sobre preferências partidárias brasileiras desde 1989 até 2002 com base no estudo de Yan de Souza Carreirão, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e de Maria D’Alva G. Kinzo, da Universidade de São Paulo (USP). Os pesquisadores constataram que, entre 1989 e 2002, a proporção de eleitores que manifestaram preferência por algum partido variou entre 41% e 54% do eleitorado nacional, com uma média de 46% para o conjunto no período. “Isso significa que este não é um fenômeno majoritário, embora não possamos desprezar o fato de haver uma parcela significativa de eleitores — beirando a metade — que assim se manifesta, quando instada a fazê-lo”, observam.
7 fases partidárias
O Brasil teve sete fases partidárias. A primeira, monárquica, começou em 1837. As rebeliões provinciais da regência possibilitaram a formação de dois grandes partidos — o Conservador e o Liberal —, que dominaram a vida política até o final do Império. O aparecimento de um Partido Progressista e a fundação, em 1870, do Partido Republicano, completaram o quadro partidário do Império. A segunda fase partidária, na Primeira República, de 1889 a 1930, conheceu partidos estaduais.
A terceira formação partidária se deu na Segunda República, com agremiações nacionais de profunda conotação ideológica: a Aliança Nacional Libertadora e o Integralismo. Há, pela primeira vez, possibilidade de apresentação de candidatos por partidos ou por alianças. Com o golpe de 1937 e a instalação da Terceira República, houve o único hiato em nossa trajetória partidária. Com a Quarta República, a redemocratização trouxe, em 1945, a exclusividade da apresentação dos candidatos pelos partidos políticos. Nessa, que seria a quarta formação partidária do País, ocorreu a explosão de um multipartidarismo com 13 legendas.
O golpe militar de 1964 iniciou a quinta fase partidária, com o bipartidarismo. A Arena seria assim o projeto brasileiro de um futuro PRI (Partido Revolucionário Institucional). As sublegendas — mecanismo utilizado para acomodar as diferenças internas nos dois partidos de então, Arena e MDB — foram copiadas do modelo uruguaio. A sexta formação partidária se deu pela reforma de 1979. Buscou-se imitar o sistema alemão de condicionar a atuação dos partidos ao alcance de um mínimo de base eleitoral. A sétima e atual fase começou em 1985, com a Emenda Constitucional no 25, com o pluripartidarismo.
A preferência partidária centrou-se entre PT e PMDB. Segundo Carreirão e Kinzo, o percentual médio para o período estudado aproxima PMDB e PT a uma taxa de preferência de 14%. Eles destacam, no entanto, que esses dois partidos apresentam tendências diferentes, pois o PMDB começa em 1989 com as maiores taxas de identificação partidária, seguindo esse perfil até 1998, quando o PT desponta como o partido de maior preferência. Em 2002, enquanto apenas 9% dos eleitores manifestavam preferência pelo PMDB, 18% o faziam pelo PT.
Teóricos atribuem ao bom desempenho de Lula em 2006 a existência de um menor grau de sofisticação da opinião dos eleitores menos escolarizados
A pesquisa ainda mostrou que aqueles eleitores que manifestaram preferência partidária, seja ela de esquerda, centro ou direita, tenderam a votar em candidatos de acordo com essas posições no espectro ideológico. “Isto transparece nos altos percentuais de eleitores, dentre os que manifestaram preferência por partidos situados à esquerda, que votaram em candidatos à esquerda (82,7%), o mesmo valendo para os que votaram à direita (78,3%), dentre os que expressaram preferência à direita”, explicaram os pesquisadores. Os eleitores que declararam preferência por partidos ao centro, de acordo com os dados divulgados, se dividiram mais, mas a maioria relativa (44,3%) votou em partidos localizados ao centro. Dentre os 46% que mostraram preferência partidária, existe uma parcela que não vota de acordo com o espectro ideológico no qual seu partido está inserido, restando, portanto, cerca de 30% do eleitorado nacional para quem a preferência partidária poderia ter influenciado o voto.
Carreirão e Kinzo ressaltam, porém, que essa configuração não significa que há uma tendência forte de os eleitores com preferência por um determinado partido de votarem em um candidato deste partido. Eles indicam a possibilidade de existir, nesse contexto, o voto estratégico. “Eleitores com preferência por um partido de direita, por exemplo, sabendo que o candidato de seu partido não tem chances eleitorais (ou se o seu partido preferido não tiver lançado candidato), podem vir a votar em um candidato de outro partido de direita”, ratificam.
Em pesquisa publicada posteriormente, sobre as eleições de 2006, Carreirão verificou continuidade nesse processo de identificação partidária. As motivações de ordem psicológica que levam à identificação partidária do brasileiro, no entanto, são pouco conhecidas. O psicólogo político Marco Aurélio Maximo Prado comenta, por outro lado, sobre os motivos que levam o indivíduo a não ter interesse na política partidária. “A relação entre representação e participação tem colaborado para democratização de processos institucionais. No entanto, o que as pesquisas atuais demonstram é que há uma grande burocratização impeditiva muitas vezes da participação do eleitor no processo”, aponta.
Maximo Prado chama a atenção para um lado da moeda que não foca a identificação e a militância partidária — o que ele classifica de “ação consensual”— como fator decisivo para a escolha do voto daqueles alinhados ideologicamente. Segundo ele, observa-se que política pode ser pensada como um dissenso, “como a emergência de um conflito que pode ser posicionado no centro da democracia e enfrentado a partir da constituição de uma multiplicidade de atores políticos que estão em cena”. Desse modo, a atuação de pessoas fora da política institucional, isto é, fora dos partidos, pode corresponder também a um posicionamento ideológico legítimo, já que, de acordo com Prado, jovens que encabeçam atividades culturais e políticas engajadas sem relação com política partidária também sabem dizer o que significa a direita e a esquerda como trajetória histórica das decisões políticas.
Segundo estudo, a preferência partidária brasileira, entre 1989 e 2002, centrou-se entre PT e PMDB
O MITO DA SOFISTICAÇÃO DA ESCOLHA DO VOTO Construir uma justificativa razoável para o voto não é um processo de subjetivação simples, o que não quer dizer também que a maioria das pessoas seja desqualificada para fazê-lo. Especialistas indicam que muitas pessoas — não apenas aquelas com níveis de instrução mais baixos — optam pelo caminho da simplificação da esfera política para tomar decisões responsáveis.
As pesquisadoras Denilde Oliveira Holzacker, da Bentley College, e Elizabeth Balbachevsky, da Universidade de São Paulo (USP), em artigo publicado no periódico Opinião Pública de novembro de 2007, ressaltam que alguns teóricos atribuem ao bom desempenho eleitoral de Lula nas eleições de 2006 a existência de um menor grau de sofisticação da opinião entre o eleitorado menos escolarizado. “Segundo essa interpretação, os grupos mais pobres e com menor escolaridade seriam desprovidos de instrumentos cognitivos necessários para decidir o seu voto a partir de uma interpretação mais ampla do cenário político”, elas explicam.
De acordo com esses teóricos, esses setores seriam mais suscetíveis à manipulação da informação feita pelo governo, e também mais vulneráveis às estratégias de clientela que muitas vezes acompanham políticas de perfil assistencialista. Os eleitores pertencentes aos estratos médio e alto da sociedade, por sua vez, seriam menos vulneráveis ao “jogo de manipulação de informações feito pelo governo” e, conseqüentemente, tenderiam a ser mais críticos com relação à sua avaliação geral, já que trabalhavam com a memória da crise política do ano anterior. Holzacker e Balbachevsky também citam a hipótese de que os mais pobres se inclinariam a favor de Lula por se tratar de um candidato ex-operário que, no seu primeiro mandato, teve sucesso na implementação de políticas compensatórias para corrigir desigualdades históricas. No outro extremo, segundo elas, estaria uma elite insensível às desigualdades que marcam a sociedade brasileira e contrária às demandas populares. No artigo, as pesquisadoras situam-se no limite entre ambas as interpretações do cenário político. “Quaisquer que tenham sido as outras motivações do eleitorado que votou em L
A preferência partidária centrou-se entre PT e PMDB. Segundo Carreirão e Kinzo, o percentual médio para o período estudado aproxima PMDB e PT a uma taxa de preferência de 14%. Eles destacam, no entanto, que esses dois partidos apresentam tendências diferentes, pois o PMDB começa em 1989 com as maiores taxas de identificação partidária, seguindo esse perfil até 1998, quando o PT desponta como o partido de maior preferência. Em 2002, enquanto apenas 9% dos eleitores manifestavam preferência pelo PMDB, 18% o faziam pelo PT.
"ELEMENTOS SUBJETIVOS, COMO CRENÇAS, REPRESENTAÇÕES SOCIAIS, A HISTÓRIA DE VIDA E EMOÇÕES MEDIAM O ATO DE VOTAR"
A cientista política Alessandra Aldé assinala que as tomadas de decisão estão de fato diretamente relacionadas com as experiências do indivíduo no acesso às representações políticas corriqueiras. A relação com o síndico do condomínio, a ida a alguma repartição do governo, o atendimento em algum centro público — tudo isso molda a concepção do que as figuras políticas representam e no que elas podem contribuir para fazer essa estrutura funcionar adequadamente. Essa particularização da política, segundo ela, é própria das democracias de massa. “Não se pode destacar apenas o Brasil pela baixa informação ou por uma suposta pouca sofisticação do voto. À medida que as democracias vão se massificando, as próprias reivindicações serão menos claramente de classe”, afirma.
O psicólogo político Alessandro Soares da Silva também atribui à massificação das relações cotidianas a demanda pela simplificação das relações de poder. A tensão entre coletivo e indivíduo marca muito as possibilidades de participação política. “Temos um espaço privilegiado de alienação da deliberação pública. Devido à ausência de tempo, à dificuldade de reflexão sobre a existência, o sujeito tem dificuldade de construir de maneira crítica. O que ele faz ao votar? Procura no coletivo aquilo que o satisfaz individualmente”, indica.
Meios de comunicação: mediadores do debate entre as demandas sociais e as decisões políticas, funcionam também como filtros de informação
DESCRENÇA E AFASTAMENTO NO POSICIONAMENTO POLÍTICO E a descrença na política — ela também é uma ideologia política? O psicólogo político Salvador Sandoval diz acreditar que sim. “A descrença diz respeito a como as pessoas vêem a classe política, e produz uma visão de mundo em que o espaço político é visto com pouca legitimidade”, afirma. Segundo ele, ser descrente quanto à política é, sim, uma postura ideológica, pois pretende criticar um sistema político que não satisfaz naquele momento sua necessidade de representação. “É uma visão política da política”, complementa.
Alessandro Soares da Silva também chama a atenção para a descrença como pretexto para a acomodação. “Quando eu atribuo o poder de decisão, eu continuo tendo uma expectativa de que aquele representante irá fazer as opções corretas para mim, já que tendo a acreditar que ele tem todo poder necessário para resolver os problemas”, ilustra. Essa posição tem a ver, de acordo com as ponderações do psicólogo, com uma postura quase crônica dos indivíduos em se distanciar da memória política do seu meio, ou mesmo da história de sua cidade e de seu país. Ele lembra que não é à toa que grupos sociais resgatam a memória da coletividade para ganhar visibilidade para sua causa, pois é assim que impulsionam os acomodados para mudar a cultura política.
"AS TOMADAS DE DECISÕES ESTÃO DE FATO DIRETAMENTE RELACIONADAS COM AS EXPERIÊNCIAS DO INDIVÍDUO NO ACESSO ÀS REPRESENTAÇÕES POLÍTICAS TRIVIAIS"
Alessandra Aldé parte da idéia de que a descrença na política é resultado da própria cultura política de distanciamento das instituições. “Temos uma sociedade com um grau de anomia muito alto; as pessoas não acreditam nas instituições”, diz. Para ela, toda atitude em relação à política tem um efeito político. Se a descrença em relação à política é crítica, ela pode produzir reflexos políticos; do contrário, pode estimular um afastamento ainda maior das instituições.
EFEITOS DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Uma das mais importantes funções dos meios de comunicação, em uma sociedade de massa, é diminuir a distância entre as instituições políticas e a sociedade. Tidos como mediadores do debate entre as demandas sociais e as decisões políticas, funcionam também como filtros de informação, uma vez que acompanham acontecimentos, selecionam fatos e os hierarquizam por importância. Desse modo, é natural que influenciem em uma medida significativa as relações de poder — é por meio deles que a sociedade se informa sobre as decisões que afetam seu dia-a-dia, que os políticos prestam contas para a sociedade e que a opinião pública é alimentada.
“Não temos uma tradição de controle dos representantes. Não compartilhamos ideologia. Enquanto nossa cultura política tiver por um lado informações tuteladas para os cidadãos, por outro lado, a forma de participação será bastante limitada e subserviente a determinados interesses que não permitem à sociedade um espaço de reflexão”, protesta Alessandro Soares da Silva. Ele atribui parte da culpa desse distanciamento do cidadão para com as instituições às falhas dos meios de comunicação social em mediar de forma plural o debate público.
O controle de informação pode ser a garantia de perpetuação no poder
O controle da informação, segundo ele, é garantia de perpetuação no poder, já que, no momento em que o cidadão tem mais acesso à informação, tem maiores possibilidades de intervir na dimensão pública, o que é difícil para o Estado. “Se pensarmos em Maquiavel (1469-1527) quando publicou O Príncipe, pensaremos sobre o que é fazer uma psicologia política das relações de poder. Na obra Maquiavel fala, sobretudo, como o Príncipe deve melhorar seu relacionamento com o povo, de modo a dar uma idéia de ampliação os espaços de discussão na sociedade e, ao mesmo tempo, torná-los objetos de controle social”, complementa.
Foi a partir dessa idéia de que os veículos de comunicação preservam as disposições sociais, que um estudo publicado na edição de outono de 2007 do International Journal Of Public Opinion Research mediu como a conjugação dos filtros sociais, intrapessoais e de mídia influenciou na opinião pública sobre o processo político dos EUA. Os pesquisadores perceberam que aqueles que disseram ter prestado mais atenção a matérias sobre eleições apresentaram opiniões significantemente menos favoráveis do processo eleitoral, assim como opiniões significantemente mais fortes.
Os filtros sociais, intrapessoais e de mídia, quando conjugados, resultaram em dois momentos distintos da formação da opinião. A pesquisa indicou que características individuais são dominantes durante a fase formativa da opinião pública. Porém, com o passar do tempo, crescente cobertura da mídia e discussões mais freqüentes podem exercer uma influência mais forte. “Aprofundando a analogia dos filtros, sugerimos que, quando a influência da mídia e da sociedade é introduzida, o filtro intrapessoal se torna mais ‘poroso’ de tal forma que predisposições e características demográficas passam a ter menos impacto na opinião pública”, concluem.
Agradeço ao Conselho Federal de Psicologia o convite para participar doSeminário Nacional Envelhecimento e Subjetividade. A proposta de discussão que será apresentada está centrada nos impactos de uma modalidade de empréstimo – o crédito consignado – na vida dos idosos. Para começo de conversa, é importante pontuar alguns aspectos que caracterizam a dita “sociedade do consumo”. Vivemos em uma sociedade na qual consumir é um imperativo que interpela, cada vez com mais intensidade, os sujeitos a buscarem a satisfação de desejos produzidos em um determinado contexto social e cultural. É justamente a perspectiva da promessa de satisfação de desejos irrealizáveis que move a economia das sociedades contemporâneas.
Se a sociedade industrial moderna valorizava o homem por sua capacidade de produção, a sociedade de consumo o valoriza por sua capacidade de consumir. Essa perspectiva produziu transformações no modo como o sujeito percebe seus desejos e constrói suas relações.
A sociedade do consumo, conforme teoriza Baudrillard, para existir, precisa da produção dos objetos, mas, sobretudo, necessita da destruição deles para se manter estruturada. Nesse contexto, valores de duração e de permanência foram substituídos pela ostentação da qualidade do que é transitório e novo. O sociólogo Zygmunt Bauman, em suas reflexões sobre a sociedade contemporânea, pontua que tanto a depreciação e a desvalorização dos produtos, logo após terem sido alçados ao universo dos desejos do consumidor, quanto da constante suscitação de novos desejos produz a permanente insatisfação do sujeito. Nunca se está satisfeito com o estilo de vida que se tem e se vive constantemente a sensação de estar desatualizado.
Nesse sentido, o consumismo, governado pela ordem do desejo, acaba deslocando o crédito produtivo, antes destinado para a aquisição de bens duráveis, para a aquisição de bens de consumo. Com uma disposição facilitada de créditos e a vontade de consumir, muitas vezes, a pessoa pode não perceber suas limitações financeiras. Dessa forma, produz-seuma nova categoria de consumidor: os super endividados. Segundo Claudia Lima Marques, professora da Universidade Federal do Rio Grande Sul e reconhecida pesquisadora na área do Direito do Consumidor, no contexto brasileiro e internacional, o super endividamento é definido como a impossibilidade do consumidor pessoa física, leigo e de boa fé, pagar a totalidade das suas dívidas atuais e futuras de consumo.
Essa situação é conseqüente do abuso de crédito e consumo demasiado, práticas cada vez mais características da sociedade contemporânea. O mercado alicerçado no consumo, para se manter equilibrado, necessita “descobrir” constantemente novas fatias de consumidores. No contexto
brasileiro, observam-se, atualmente, dois fenômenos que possibilitam a “descoberta” de novos consumidores. O primeiro deles é a ascensão das classes populares para a camada média, que se deve, principalmente, à maior formalização do trabalho por parte das empresas contratantes, ao aumento do salário mínimo e aos programas assistenciais promovidos pelo governo, como o Bolsa Família. No levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), de 2007, observa-se que, entre 2001 e 2007, 13,8 milhões de pessoas subiram de faixa social, sendo a maioria originária da base da pirâmide: 10,2 milhões saltaram da camada de baixa renda (entre R$ 0 e R$ 545,66 de ganho mensal por família) para a de renda média (entre R$ 545,66 e R$ 1 350,92). O restante, 3,6 milhões de pessoas, subiram da faixa de renda média para a alta renda (acima de R$ 1.350,82).
Sabe-se que é difícil conceituar classe média em razão de suas subdivisões e do fato de que, num país de dimensões e características regionais diversificadas como é o Brasil, o fator “renda” não delimita claramente a condição econômica familiar. Aquilo que se pode fazer com
um salário de mil reais, no Nordeste brasileiro, não garante a mesma condição de vida a quem recebe essa mesma quantia no cenário de estados mais desenvolvidos, como os da Região Sudeste do país. Mas, esses dados possibilitam compreender que uma camada da população está se tornando um nicho de consumidores em potencial, descoberto pela área do marketing e da publicidade como mais um segmento que move a economia.
Outro fenômeno que vem se configurando no contexto brasileiro nosúltimos anos é o aumento do poder de consumo de idosos. No Brasil, o número de pessoas idosas, acima de 60 anos, está crescendo rapidamente e sua participação na população geral aumentou de 4,7% em 1960 para 10,2% em 2006, representando hoje um grupo com mais de 18 milhões de pessoas. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio, do IBGE, de 2006.
Muitos idosos obtiveram melhoria na sua situação financeira com a ampliação dos benefícios, especialmente para os trabalhadores rurais a partir da Constituição de 1988. Observa-se que a grande maioria dos idosos é caracterizada por possuir uma renda baixa, mas regular.
Neste cenário, percebe-se o aumento das estruturas familiares contemporâneas que possuem idosos residentes. Ana Amélia Camarano
e Solange El Ghaouri, pesquisadoras na área de Estudos Populacionais e Demografia do IPEA, diferenciam em seus trabalhos essas famílias em
dois grupos: famílias de idosos, nas quais o idoso é o chefe ou o cônjuge, e famílias com idosos, nas quais eles moram na condição de parente do chefe. No Brasil, predominam os arranjos em que o idoso é o chefe – membro denominado como responsável pelo domicílio – chegando a 86% do total de famílias com idosos residentes. Além disso, as famílias brasileiras de idosos apresentam melhores condições econômicas do que as famílias com idosos. Nesse sentido, se pode pensar no idoso como um sujeito que constitui um arrimo de muitas famílias, porque se observa que, hoje, se tem muito mais gerações convivendo e coabitando os mesmos espaços.
É neste “caldo”, em que se articulam transformações na estrutura social, econômica e demográfica e nas políticas de consumo que, em 2003, no Brasil, surge a possibilidade de um crédito consignado, com baixas taxas de juros, para as pessoas que recebem aposentadoria ou pensão através do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Essa modalidade de crédito – debitado automaticamente do benefício do aposentado e do pensionista – foi criada por meio da medida provisória 130/2003 e regulamentada em 2004, para aposentados e pensionistas, e alcançou uma adesão impressionante entre os idosos.
Desde a sua criação, houve problemas com a regulamentação do crédito consignado, o que levou a mudanças constantes das normas reguladoras, que não cessaram até hoje. Em 2004, não havia limites para o valor financiado. Contudo, hoje, o valor máximo da renda a ser comprometida, não pode ultrapassar 30% do valor da aposentadoria ou pensão recebida pelo beneficiário, dividida da seguinte forma: 20% da renda para empréstimos consignados e 10% exclusivamente para o cartão de crédito. O número máximo de parcelas é de 60 meses, conforme instrução normativa do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), publicada em 2008.
Por ser tratada como política pública de inserção do idoso no mercadode consumo e incentivado pela legislação, o crédito consignado está sendo fomento de diversas atividades. Como exemplo, podemos citar a recente iniciativa criada na área do turismo, lançada em setembro de 2007 pelo Ministério do Turismo. Trata-se do Programa Viaja Mais - Melhor Idade, que oferece pacotes turísticos com preços reduzidos e possibilidades de pagamento por crédito consignado, no período debaixa temporada. Como justificativa para a concepção de tal programa, encontra-se o argumento de que o incentivo ao turismo tem por objetivo reduzir a taxa de desemprego durante a baixa ocupação e dinamizar anda mais a atividade turística do Brasil. Assim, observa-se a relação direta do crédito com a movimentação da economia.
Frente a este aumento repentino dos créditos aos aposentados e pensionistas, torna-se indispensável compreender o que representa o crédito consignado para este grupo da população e que repercussões ele provoca na vida dos idosos que o contratam. A partir do levantamento dessas questões, o grupo de pesquisa do qual faço parte na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), composto por professores e estudantes de graduação e pós-graduação em Educação e Direito - desenvolveu um estudo em parceria com o PROCON de São Paulo. A pesquisa “O idoso frente ao empréstimo consignado: implicações educacionais” foi realizada junto a pessoas que freqüentam grupos de convivência em Porto Alegre e em São Paulo. Nesse
estudo foram entrevistadas 215 pessoas idosas, 125 em São Paulo e 98 em Porto Alegre.
Para contribuir com as discussões deste evento quero compartilhar algumas características da realidade do Rio Grande do Sul – especificamente da cidade de Porto Alegre. Os enfoques principais do estudo foram: quem são as pessoas que contratam crédito consignado? Quais são as razões para contrair tal crédito? Quais são os efeitos desse crédito na vida dos sujeitos?
O perfil do idoso endividado: o caso de Porto Alegre
Os resultados da pesquisa realizada em Porto Alegre indicam que do grupo entrevistado, 43 (43,9%) informaram que tinham feito pelo menos um crédito consignado, um dado muito próximo ao número geral do INSS. Dos 43 participantes, 38 eram mulheres e 5 eram homens. Observa-se um número maior de mulheres, característica associada à expressiva participação destas nos espaços de socialização em que foram realizadas as coletas de dados. A maior parte dos idosos (58%) que relataram já ter contratado crédito consignado tem entre 66 e 75 anos.
Sabe-se que os participantes da pesquisa não são representativos para caracterizar os idosos do Brasil, em função dos locais onde foram feitas as entrevistas – grupos de convivência. Contudo, o perfil sócio-econômico é muito semelhante ao de um grande grupo de idosos brasileiros: uma renda estável, mas pequena (12% até um salário mínimo; 42% entre um e dois salários mínimos; 37% entre dois e quatro salários mínimos) e uma escolaridade bastante baixa (9% sem escolaridade; 39% entre um e quatro anos de escolaridade). Este dado é muito preocupante, pois nos faz questionar sobre a real capacidade de os sujeitos compreenderem as regras dos contratos e se planejarem para os impactos dos empréstimos em seus orçamentos mensais.
Grande parte dos idosos coabita com filhos e netos. Nesse sentido, é possível verificar a existência de uma influência do núcleo familiar para a contratação dos créditos, já que praticamente um terço dos idosos revelou que contrataram empréstimos para terceiros (27,9%) ou para reformar a casa (23,3%).
Os “terceiros” comumente são pessoas da rede familiar e as reformas da casa podem estar associadas a um “ninho cheio” de familiares. Outra questão que pode ser levantada a partir desses resultados é a configuração do crédito como mais um elemento de suporte – como o afeto e o cuidado – nas relações de trocas inter geracionais familiares.
Em relação às conseqüências do crédito na vida dos participantes, um considerável grupo (64%) enfrenta certas dificuldades e contraiu novas dívidas. Destes, 41% cortaram gastos com necessidades básicas, saúde ou atrasaram outros pagamentos. Quando questionados sobre a situação de vida após o contrato do crédito, as opiniões dos participantes mostraram-se bastante diversas: cerca de 35% referiram que sua situação melhorou, 35% mencionaram que nada mudou, e para 30% a situação piorou.
Mesmo frente às adversidades provocadas pelo impacto do crédito na vida dos idosos, a maioria dos entrevistados faria um novo empréstimo por considerar que embora o crédito não seja bom, às vezes “não se tem alternativa”. Esse discurso evidencia o empobrecimento desses grupos sociais.
Pergunta-se, então: qual é a base do sucesso do crédito consignado? Um dos elementos é a produção de necessidades pela ordem do desejo. A modelagem e fabricação da subjetividade são feitas através de diferentes artefatos culturais e técnicos com os quais as pessoas têm contato.
Assume um lugar de destaque na contemporaneidade a produção e circulação de formas simbólicas por meio das atividades da mídia.
Mídia e crédito consignado
A mídia vem transformando-se em uma das fontes mais poderosas da produção de desejos. Mike Featherstone, na década de 90, ao discutir as funções contemporâneas da publicidade aponta que ela é especialmente capaz de fixar imagens de romance, exotismo, beleza, realização, progressocientífico e vida boa em diversos bens de consumo do dia-a-dia, tais como sabões em pó, máquinas de lavar roupa, pastas de dente, refrigerantes, entre tantos outros. Dessa forma, captura-se o sujeito por meio de uma economia
emocional que o torna desejante de viver aquilo que ele interpreta dos signos que lhe são oferecidos como possibilidades de identificação. Conforme Severiano, em uma pesquisa realizada em 2006 a acerca dos processos de individuação/homogeneização no contexto das sociedades de consumo contemporâneas, a partir de publicidades de celulares e carros, as estratégias utilizadas para captar os sujeitos baseiam-se na promessa de realização dos seus desejos de completude, com ênfase aos ideais de singularidade de distinção social.
Destaca-se, nesse sentido, a importância do Código de Defesa do Consumidor – Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990 – como norma geral das relações de consumo no contexto brasileiro. Especificamente em relação à publicidade, cita-se o art.6º., IV, em que o legislador determina que é direito básico do consumidor sua proteção “contra publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços”.
Outras estratégias que vão ao encontro da identificação do consumidor são personagens apresentados em filmes e programas de televisão. Artistas em geral tornam-se pontos de referência comuns para milhões de indivíduos. Especificamente em relação à propaganda de crédito consignado pode-se citar o exemplo do Banco Panamericano que, para divulgar o produto Cred Pan em 2005, tinha uma foto da Hebe Camargo, artista amplamente conhecida no contexto brasileiro, como referência de seu anúncio publicitário, promovendo o Crédito Amigo. A artista contratada pode ser vinculada aos signos de dinamismo, beleza, irreverência. Esse anúncio mobiliza, assim, diferentes emoções no público para o qual é destinado, pois a linguagem utilizada opera no sentido de produzir certos significados para que o sujeito invista-os de sentido conforme suas experiências.
A pesquisa “O idoso frente ao empréstimo consignado: implicações educacionais” apontou os três bancos mais contratados pelos participantes do estudo residentes em Porto Alegre (RS). São eles: Caixa Econômica Federal, Banrisul e Banco do Brasil. Uma rápida análise dos folders de divulgação desta modalidade de crédito podem auxiliar nas discussões acerca das estratégias utilizadas pela publicidade para “fisgar” esses consumidores. O folder da Caixa Econômica Federal instituição responsável, apresenta na capa dois casais que veiculam as impressões de alegria, companheirismo
e bonança. A mensagem transmite a idéia da segurança e tranqüilidade, apelando para uma narrativa de cunho ilusório de salvação quando anuncia o crédito com a palavra “ACREDITE” em destaque, assumindo lugar central da propaganda.
Consome-se, assim, por antecipação uma situação que se apresenta distante da realidade, no momento em que basta acreditar para contratar o crédito e resolver todos os problemas ou satisfazer todas as necessidades/desejos de forma instantânea e fácil.
Destaca-se também o caráter abusivo da publicidade – comum à propaganda dos três bancos citados – observado na parte externa e interna do material “informativo”. As informações não são claras, tanto do ponto de vista do conteúdo quanto do tamanho da letra do texto, dificultando a compreensão e alcance do seu teor. Há, também, na narrativa do texto, uma pressão para que o sujeito “confira a simulação e faça já seu empréstimo”.
Assim, não se apresenta nenhum respeito à oportunidade de tomar conhecimento prévio do conteúdo dos contratos de empréstimos. “Sem necessidade de consulta ao SPC/SERASA e sem avalista, o crédito consignado CAIXA oferece as melhores condições do mercado e sem burocracia”, demonstrando, desse modo, não se preocupar se o contratante tem condições de cumprir o contrato. Assim, apresenta mais um ato abusivo.
A propaganda também reforça a confiança do banco em seus clientes, utilizando-se, novamente, dos efeitos produzidos pelos significados do verbo acreditar expresso na parte interna do anuncio por meio da frase “O banco que acredita nas pessoas”. Assim, o sujeito sente-se importante e valorizado por uma instituição boa que acredita na boa fé das pessoas.
A propaganda do Banrisul traz algumas semelhanças com a praticada pela Caixa no que tange à falta de clareza das informações. Observa-se especificamente a imprecisão acerca
das taxas de juros. Contudo, há diferenças nas emoções que podem ser mobilizadas pela imagem da capa do folder. O folder da Caixa valoriza a relação de parceria entre casais. Já o folder do Banrisul faz um apelo romantizado para a manutenção de afetivas e prazerosas relações familiares.
Tem-se, então a casa como figura de fundo e em maior destaque um idoso recebendo um abraço de uma mulher mais jovem. O idoso está em evidência com uma expressão facial e corporal que remete à idéia de uma satisfação e empoderamento, enquanto a jovem o abraça, de maneira afetuosa e acolhedora, com o olhar voltado para baixo e
expressando um sorriso.
No caso analisado, a casa e as relações afetivas são elementos importantes para o segmento alvo do anúncio, visto os resultados da pesquisa de O idoso frente ao empréstimo consignado: implicações educacionais que apontam como principais razões para contrair o empréstimo o contrato de crédito para outros membros da família e para reformar a casa. Desse modo, percebe-se que o produto a ser anunciado aparece vinculado com elementos do dia-a-dia da vida do consumidor, levando-o a interagir de forma automatizada na sua aquisição.
Por fim, a capa do folder do Banco do Brasil apresenta outras mensagens vinculadas ao crédito consignado. Contudo, há um elemento comum com o anuncio do Banrisul: trata-se do uso da expressão “melhor idade”. Esse termo possui uma equivalência à terminologia terceira idade no sentido de representar um sinônimo de envelhecimento ativo e independente. Também se observa que nos anúncios que utilizam a designação de melhor idade para identificar seu público alvo, os idosos parecem ser mais velhos e estão vivenciando uma relação intergeracional, que pode ser vinculada às trocas promovidas pelas redes sociais de reciprocidade.
Por outro lado, o anúncio da Caixa que não utiliza essa expressão veicula imagens de casais de idosos mais jovens, remetendo a um suporte solidário, fundamentado nas trocas entres as pessoas de uma mesma geração.
O folder do Banco do Brasil utiliza-se das cores rosa, lilás, azul – que por si só remetem a uma sensação de doçura e candura – para representar a relação intergeracional. As expressões e posturas da idosa e da criança transmitem a ideia de carinho e admiração. A figura central do anúncio, que une menina e idosa, pode representar na cena a entrega de um cartão da neta dado para avó ou a leitura de um livro. Ambas as situações envolvem uma troca e uma valorização positiva dessa situação. É possível conceber que o crédito consignado pode ser positivo, aumentar o bem-estar das famílias e proporcionar o acesso ao mercado de consumo de bens e serviços. Nesse sentido, se o sujeito utiliza o crédito consignado de forma consciente – isto é, contrai o crédito conhecendo o contrato e as taxas de juros e organiza seu orçamento mensal para o débito das parcelas durante os meses acordados – este pode ser compreendido como um mecanismo de inclusão social. Mas, como já foi citado, também pode acarretar consequências mais problemáticas na vida de quem o contrata. Dessa forma, é importante pensar tanto em medidas de proteção legal como na criação de intervenções que permitam aos sujeitos uma compreensão das ferramentas do consumo contemporâneo, e assim usar de forma consciente os novos recursos de acesso ao mercado como o crédito consignado.
Neste evento, falou-se em educação para a saúde e a proposta da discussão aqui apresentada dirige-se à importância de se pensar em uma educação para o consumo. A Psicologia, neste sentido, é convocada a criar estratégias nas suas diferentes áreas de prática profissional, que possibilitem o surgimento de condições para a produção de um novo tipo de subjetividade. Felix Guattarri e Suely Rolnik na obra Micropolítica,
Cartografias do desejo, propõem que se singularize por meio de outras maneiras de ser, outras sensibilidades, outras percepções que se opõem à subjetividade capitalística. Não se trata de diabolizar a contratação de empréstimos, mas de criar mecanismos que ofereçam ao consumidor a possibilidade de se posicionar perante os apelos do consumo.
E quais são os nossos possíveis parceiros? Conselhos Municipais e Estaduais de Idosos, Grupos de Convivência, Universidades da Terceira Idade, escolas que oferecem Educação de Jovens e Adultos (EJA), Associação de Aposentados e Pensionistas, Procon’s.
Cabe destacar que, conforme Censo do IBGE de 2000, 22% das pessoas que freqüentam alfabetização de adultos têm mais de 50 anos.
"Crianças precisam de liberdade para errar" O filósofo escocês diz que a sociedade competitiva transformou a infância em uma fase de stress comparável à da vida adulta
Por Suzane G. Frutuoso
MOMENTO "Somos pressionados a oferecer uma infância perfeita aos nossos filhos", diz ele
No dia em que o filósofo escocês Carl Honoré, 41 anos, foi chamado na escola do filho Benjamin, hoje com 10 anos, e ouviu da professora de artes que o menino desenhava muito bem, ele se encheu de orgulho e sonhou alto. Saiu de lá e foi fazer uma pesquisa na internet sobre escolas de educação artística. Já imaginava: "Estarei criando o próximo Picasso?" Mas, ao indagar o menino sobre o curso, levou um balde de água fria. "Não quero ir para uma aula na qual o professor vai me dizer o que fazer. Só quero desenhar", disse Benjamin, com firmeza. "Por que os adultos têm que tomar conta de tudo?" Honoré percebeu quanto estava sendo um pai ansioso querendo dominar a felicidade simples do filho e transformá-la em realização. Ele entendeu também que não estava sozinho. Foi quando deu início às pesquisas do livro "Sob Pressão" (Ed. Record), recém- lançado no Brasil. "A ideia era retomar minha autoconfiança como pai e ajudar outros da mesma maneira", diz Honoré, que também é pai de Susannah, 7 anos. Uma das principais vozes do movimento slow (por uma vida mais tranquila), o filósofo foi criado no Canadá e hoje mora em Londres. Ele domina o português porque morou no Brasil em 1988 e 1990 para trabalhar com meninos em situação de risco.
ISTOÉ - Qual o problema de pais que, como o sr., tentam desde cedo lapidar a vocação infantil? Carl Honoré - Não há nada errado em encorajar o talento de um filho. Pelo contrário. É uma das principais responsabilidades dos pais identificar suas paixões e ajudá-los a desenvolvê-las. Mas existe uma grande diferença entre incentivar um talento e colocar a criança sob pressão, numa corrida obsessiva mirando o topo. A infância serve para descobrirmos quem somos e no que somos bons gradualmente, sem ninguém decidindo por nós. Deveria ser um tempo de experimentação em uma série de atividades diferentes. Focar logo cedo em algo leva ao perigo de se fechar para outras opções. Você limita os horizontes da criança no momento em que ela deveria estar aberta para um mundo de possibilidades. Uma criança não é um projeto que você pode modular. Ela é uma pessoa que precisa de permissão para ser protagonista de sua própria vida.
ISTOÉ - Mas a sociedade acredita que talento bom é talento precoce, certo? Honoré - Talento precoce não é garantia de futuro brilhante. Crianças mudam conforme crescem, especialmente na adolescência. O menino que dribla espetacularmente os amigos, como o jogador Robinho fazia aos 6 anos, pode ser um atleta medíocre aos 13. Crianças precisam de espaço e liberdade para cometer erros, fazer más escolhas, ficar em segundo lugar no pódio. É assim que elas aprendem a trabalhar seus pontos fortes e descobrirão no que são boas. Claro que há casos de crianças prodígio que treinam com afinco seus talentos naturais e alcançam benefícios - na música, por exemplo. Mas é importante lembrar que é uma minoria. Nossa cultura exige perfeccionismo. Isso torna difícil para nós, pais, segurar expectativas e ajudar nossos filhos a desenvolver todo potencial que têm sem cair na fantasia de que eles podem ser os próximos Pelé, Paulo Coelho ou Caetano Veloso.
"Crianças mudam. O menino que dribla espetacularmente, como Robinho fazia aos 6 anos, pode ser um atleta medíocre aos 13"
ISTOÉ - Como a pressão, com atividades que em tese melhorariam o desempenho no futuro, pode ser prejudicial? Honoré - É possível acabar para sempre com o desejo dela por algo de que goste. Acelerando o processo de aprendizado, frequentemente não se aprende tão bem. Uma professora de música de Londres me contou sobre uma menina que começou a estudar violino aos 3 anos. Ela saltou à frente de seus pares. Mas aos 6 a técnica dela era tão distorcida que precisou passar meses reaprendendo o básico. As outras crianças que ela tinha ultrapassado acabaram deixando-a para trás.
ISTOÉ - Quais são os problemas do mundo contemporâneo que já afligem as crianças? Honoré - Estamos em um momento único da história da infância na qual somos pressionados a oferecer uma infância "perfeita" aos nossos filhos.
Uma série de tendências convergiu ao mesmo tempo para produzir uma cultura da perfeição. A globalização trouxe mais competição e incertezas sobre o mercado de trabalho, o que nos deixa mais ansiosos em preparar os filhos para a vida adulta. A cultura do consumo alcançou a apoteose nos últimos anos. O próximo passo é criar uma cultura de expectativas elevadas: dentes, cabelos, corpo, férias, casa, tudo deve ter perfeição. E crianças perfeitas fazem parte desse retrato. É uma cultura do tudo ou nada.
Ou você é uma celebridade ou você é um ninguém. É rico ou pobre. É feliz ou depressivo. Parece que perdemos todas as nuances entre os extremos. Não toleramos coisas medianas ou boas o suficiente.
ISTOÉ - Por que isso acontece? Honoré - Porque os pais dessa geração perderam a autoconfiança. O que nos torna iscas fáceis de empresas que criam produtos desnecessários para cuidar de crianças. Ao mesmo tempo, a sociedade é profundamente impaciente. Queremos tudo agora. E achamos complicado recuar e deixar as coisas acontecerem. Sou pai e sei como é confuso criar uma criança nos dias de hoje. O foco do livro não é demonizar os pais. É nos fazer menos culpados e inseguros em relação aos nossos filhos.
ISTOÉ - Como, então, incentivar o talento das crianças de modo saudável? Honoré - Primeiro, não pressionando os muito pequenos. No esporte, há um número recorde de crianças com lesões graves, como rompimento dos ligamentos, porque estão treinando como profissionais. Quando crescem, deixam o esporte de lado por perderem o prazer de praticá-lo devido à competição que viveram muito jovens. Para medir a paixão de um filho por algo é necessário observar, ouvir e ler os sinais dele. Se nunca fala sobre uma atividade que pratica pode ser sinal de que não está completamente engajado naquilo. Se dorme no carro a caminho da atividade ou tem olheiras, provavelmente está sendo exigido demais. Se você tem de brigar para que um filho se dedique ao que faz, talvez seja hora de parar. A resistência contínua é sinal de que a atividade não é a ideal para a criança. Ou não é o momento certo. Também é crucial não deixá-la preocupada em relação ao desempenho. Encoraje-a a se dedicar constantemente, mas sem pressa. O pai do golfista Tiger Woods permitiu que ele fosse adiante num ritmo comedido. Sua política era fazer Tiger se desenvolver em seu próprio ritmo, nada além disso. E olhe como funcionou!
ISTOÉ - Existem paralelos entre crianças com excesso de atividades extracurriculares e crianças exploradas em trabalhos infantis? Honoré - Talvez existam. Em ambos os casos, elas são prejudicadas ao serem impedidas de viver uma infância apropriada. O tempo delas não lhes pertence realmente. Criadas assim serão menos criativas. Estão tão preocupadas em agradar aos adultos e fazer tudo certo que não aprendem a pensar por si sós e a olhar para dentro de si mesmas. Sofrem com stress. Como têm cada minuto organizado e supervisionado por adultos, mais tarde descobrirão que é difícil viver por conta própria. Nunca amadurecerão. Há pouco tempo, soube do caso de um professor que pediu a um rapaz de 19 anos que desligasse o celular em aula e ouviu: "Por que você não resolve isso com a minha mãe?" Há pais que estão indo a entrevistas de trabalho com os filhos negociar salários e benefícios.
ISTOÉ - Parece que os pais de hoje sofrem justamente por terem inúmeras possibilidades e não saberem o que é melhor. Eles estão apavorados? Honoré - Muito. Eles têm um mundo de conselhos, alertas e opções - e ficam sem saber o que fazer. E quando não sabemos o que fazer acabamos fazendo o que todo mundo está fazendo. Pais confiantes são resistentes ao pânico e à pressão, conseguindo assim encontrar o caminho para educar seus filhos. Não existe fórmula mágica para educar. Cada criança é única, assim como cada família. O segredo é encontrar a fórmula que funciona melhor para você e seu filho.
ISTOÉ - Há no Brasil pais escolhendo a escola dos filhos de 5, 6 anos conforme um ranking daquelas cujo ensino garante o ingresso nas melhores universidades. Eles estão certos? Honoré - É o mesmo fenômeno aqui na Inglaterra. Eles querem que o filho entre numa boa universidade. O problema é o sistema para chegar lá. As melhores escolas são tão obcecadas em alcançar as maiores pontuações nos exames de avaliação que a educação sofre falhas. Há colégios hoje que são como fábricas com uma linha de produção. É uma escolha difícil para os pais. Não se pode esperar que sacrifiquem o futuro de seus filhos. Então, acredito que seja a única coisa que esses pais podem fazer nas atuais circunstâncias. Mas há outro ponto a ser lembrado. Criar um mundo perfeito para seu filho, no qual tudo é gerado de acordo com as necessidades dele, em que as emoções dele sempre vêm primeiro, não é uma preparação razoável para a vida adulta. Não é assim que o mundo real funciona. Nem todos aqueles que vão para as melhores escolas particulares e mais renomadas universidades são mais felizes, saudáveis e bem-sucedidos.
"Uma escola escocesa eliminou a lição de casa dos 3 aos 13 anos. Em um ano, as notas em matemática e ciências melhoraram 20%
ISTOÉ - O que é fundamental na educação de uma criança? Honoré - Elas precisam de tempo e espaço para explorar seu próprio mundo. Precisam de amor e atenção. Devem ter permissão para se arriscar.
Há um movimento na Inglaterra contra festas de aniversário esbanjadoras. Muitos pais estão limitando os presentes que os filhos recebem ou até os proibindo. Estão reaprendendo a dizer não. Investimos tempo, dinheiro e energia num currículo matador para nossos filhos, mas tendemos a vacilar na disciplina. Do mesmo modo, crianças precisam dizer não para nós às vezes. Vejo uma mudança se aproximando. Pelo mundo, escolas estão revendo a obsessão por exames e evitando o excesso de atividades acadêmicas para que os alunos tenham tempo de relaxar, refletir e aprender coisas sozinhos.
Há pouco tempo uma escola escocesa eliminou a lição de casa para as crianças de 3 a 13 anos. Em um ano, as notas em matemática e ciências melhoraram 20%.
ISTOÉ - Há outros exemplos? Honoré - Sim. Para que os jovens voltem a se interessar por esportes, as ligas esportivas estão reprimindo o abuso de pais que enfatizam a importância de ganhar a qualquer custo. Recentemente, o Massachusetts Institute of Technology (MIT) reformulou o formulário de matrículas com ênfase num número menor de atividades extracurriculares que os alunos considerassem importantes para a futura carreira e optassem por assuntos que lhes despertassem paixão. Até mesmo Harvard está revendo o excesso de atividades, como mostra uma carta da direção encaminhada aos novos alunos.
"Você pode equilibrar melhor sua vida se participar de algumas atividades por puro divertimento, mais do que daquelas que imagina que serão um diferencial para conseguir emprego. As relações humanas que você construir com seus colegas pode ter uma influência maior em sua vida futura do que o número de cursos que você fará." O título: "Vá devagar: absorvendo mais de Harvard fazendo menos."
III Colóquio Educação, Cidadania e Exclusão - Gênero e Pobreza: Imagens de Escola
Gênero e Pobreza: "Imagens de escola" Na edição de 2009 buscamos atualizar as discussões sobre exclusão e pobreza inserindo a temática de Gênero a partir das imagens das escolas, em que os estudos etnográficos contribuem, sobremaneira, para conhecer, compreender e desvelar a realidade sócio educacional vivenciada por uma parcela significativa de jovens e crianças em todo mundo. As desigualdades de gênero, associadas a pobreza, têm incidido sobre as práticas, as políticas e as teorias educacionais no Brasil na última década.
Data: 04, 05 e 06 de Novembro Local: Universidade do Estado do Rio de Janeiro Rua: São Francisco Xavier, 524 Maracanã - RJ Informações: (21) 3253-5849 coloquio@netedu.pro.br
No I e II Colóquio Educação, Cidadania e Exclusão (2005 e 2007) reunimos professores e pesquisadores de diversas instituições para debatermos a questão da desigualdade e da exclusão observadas nos altos índices de fracasso escolar no Brasil. Oportunizamos a participação de estudantes de graduação e de demais profissionais da educação, que atuam em escolas públicas e particulares, onde as condições de exclusão evidenciam o modo como os processos educacionais se desenvolvem para a formação dos sujeitos do conhecimento.
O III COLÓQUIO EDUCAÇÃO, CIDADANIA E EXCLUSÃO têm como intuito contribuir para os estudos em educação, tendo a investigação qualitativa e a abordagem etnográfica como instrumentos para melhor atender as necessidades de pesquisa desta natureza.
Com a 3ª edição do Colóquio, o Núcleo de Etnografia em Educação - NETEDU pretende reunir pesquisadores, docentes, discentes e profissionais da área de Ciências Humanas do Brasil e do Exterior, possibilitando trocas de experiências adquiridas entre os mesmos sobre a temática a partir da investigação qualitativa.
Com o objetivo de expandir o espaço de debate sobre etnografia em educação, o NETEDU juntamente com outras instituições está realizando seu terceiro evento na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
OBJETIVOS III Colóquio Educação, Cidadania e Exclusão – Gênero e Pobreza: Imagens da Escola terá como tema central as políticas públicas e como foco as teorias que abordam as questões sobre gênero e pobreza e suas implicações para inclusão/ exclusão escolar. O evento pretende discutir tais temáticas, para assim promover no âmbito acadêmico espaços de trocas de experiências entre pesquisadores, docentes, discentes e profissionais da área de educação e áreas afins.
TEMÁTICA CENTRAL
Educação, Cidadania e Exclusão;
Gênero e Pobreza.
EIXOS TEMÁTICOS
Gênero e Educação.
Etnografia em Educação.
Pobreza e Exclusão.
Políticas Públicas. Fracasso Escolar Letramento
REALIZAÇÃO DO EVENTO A 3ª edição do Colóquio Educação, Cidadania e Exclusão – Gênero e Pobreza: imagens da escola ocorrerá no dia 04 de novembro, no horário de 17 às 19:30 horas e nos dias 05 e 06 de novembro de 2009 no horário de 10 às 18 horas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ - Campus Maracanã, 1º andar Auditório 11 Bloco F.
PÚBLICO ALVO
Pesquisadores especialistas;
Professores e professoras;
Estudantes de Graduação e Pós-Graduação;
Profissionais de áreas do conhecimento para os quais os temas são relevantes.
CONVIDADOS
Frederick Erickson - University of California (Conferencista Internacional) Nigel Bagnall - University of Sydney (Conferencista Internacional) Maria Torres - University of New York (Conferencista Internacional) Alba Zaluar (UERJ); Alfredo Veiga-Netto (ULBRA) Antônio Flávio Barbosa Moreira (UCP) Fúlvia Maria de Barros Mott Rosemberg (PUC/SP); Guacira Lopes Louro (UFRGS); Marília Pinto de Carvalho (USP); Elizabeth Macedo (UERJ); Dagmar Meyer (UFRGS) Stella Bortoni-Ricardo (UNB)