As dificuldades atuais do relacionamento afetivo
Numa época de profundas transformações, é preciso transpor alterações que

ocorreram na sociedade para o núcleo familiar. Para isso, é imprescindível abandonar valores do passado

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São heroicas as tentativas de manter um casamento satisfatório atualmente. Nem sempre esses valores são compatíveis ou ao menos consistentes com o modelo que, como um arquétipo, ainda define nosso horizonte relacional e parental. Sonhamos com a cultura francesa, mas copiamos a norte-americana. Fantasiamos a harmonia ainda utópica nas relações afetivo-sexuais e nestas, brigamos por uma igualdade pouco entendida. Oscilamos entre a fraternidade (romântica) francesa e a objetividade dos valores individuais da cultura norte-americana.
Liberdade, Igualdade e Fraternidade apresentam inúmeros pontos de dificuldade de compreensão, contradições e ambivalências mesmo nos âmbitos social e econômico. Quando adentramos à microssociedade (família), vemos que esses ideais estão ainda distantes.
Superficialmente nossa sociedade vive, sim, sob uma boa dose de liberdade, significativos avanços quanto à igualdade e uma imensa dúvida quanto ao significado, amplitude e real valor da fraternidade. Esse quadro colore, também, uma grande parte dos casamentos.

Liberdade
O casamento que conhecemos passou a ter a chancela legal do Estado por volta de 1750 na Europa e ganhou um grande impulso com os ideais da Revolução Francesa (1789). Ele esteve em vigor por cerca de 200 anos, período em que nós, individualmente, passamos a ter liberdade de escolher nosso par. O "amor" - a livre escolha - foi o ponto de partida das uniões afetivo-sexuais duradouras apenas depois de 1800 porque a liberdade individual, antes desse período, se fazia acontecer, em boa parte, após o casamento. Não é puro acaso a coincidência de datas entre o dístico da revolução francesa (Liberté, Egalité, Fraternité), e a liberdade da escolha do cônjuge. A liberdade se propagou com bastante rapidez estimulada pela revolução francesa e, a partir dela, os jovens foram aos poucos fazendo suas escolhas, possivelmente ainda dentro dos padrões paternos, mas já acobertadas pelo amor.
A escolha de um cônjuge sempre se fez por interesse e isso é visto em qualquer âmbito e época, desde os animais irracionais entre os quais a fêmea escolhe o macho pelos indicadores de que é capaz de produzir filhos sadios (fortes), passando pela futura esposa-padrão do século passado que escolhia para marido um homem bem-sucedido e, ainda hoje, quando a busca é por homens inteligentes, estáveis, maduros ou equilibrados. Da mesma forma, o homem sempre buscou uma mulher que pudesse ser "boa mãe", mesmo que de maneira inconsciente. A diferença que ocorreu nos diversos momentos da história recente foi a alternância entre o interesse do indivíduo e o interesse de seus responsáveis. A elite econômica (e cultural) europeia, antes de 1800, estabelecia contratos quanto aos pares que se casariam com seus filhos, em função dos interesses familiares (predominantemente econômicos). Nesse período também na classe social mais elevada, o casamento acontecia cedo, ainda na adolescência, quando a dependência dos pais era praticamente total. A rebeldia adolescente só veio a acontecer recentemente, na época pós-industrial e com o advento da universalização da educação formal.
Naturalmente essa descrição é generalista já que cada cultura e cada família mantêm intramuros os seus costumes. No oriente, o costume de pais estabelecerem acordos para o casamento dos filhos foi comum até 1950 e ainda pode ser encontrado. No Brasil, no século XXI, nas capitais metropolitanas de melhor nível econômico e cultural, ainda há pais que impedem, dificultando a qualquer preço, o casamento de suas filhas adultas, graduadas no nível superior, com um pretendente não aprovado por eles.

Royal Collection, Windsor
O casamento passou a ter a chancela legal do Estado por volta de 1750 na Europa. Naquela época, o casamento era arranjado de acordo com interesses econômicos

Naturalmente, um casamento que se realizava por um acordo prévio de terceiros, com objetivos econômico-sociais estava propenso a não gerar intimidade, compromisso, parceria (ao menos inicialmente) e, por isso, a nova possibilidade de, com liberdade individual, escolher o cônjuge, fez com que surgisse uma expectativa ingênua: se o par for escolhido em função do amor, a felicidade estará garantida.
Pelos duzentos anos que se seguiram, as pessoas que puderam escolher seus cônjuges por amor acreditaram nessa possibilidade e a esmagadora maioria delas se desencantou logo cedo ou pouco mais tarde. O casamento enfrentou então sua grande crise, continua nessa crise há mais de 50 anos e vem sofrendo mudanças em todo esse período.
Na primeira metade do século passado surgiram sinais importantes de que tomávamos consciência desse engano. Em 1936, Wilhelm Reich publicou A Revolução Sexual que se insurgia contra alguns dos pilares do casamento, que nesse livro ele chamava de burguês. Depois disso, inúmeros livros, artigos, pesquisas e conversas em bares afirmavam que o casamento havia falido. Era uma afirmação bombástica que buscava causar impacto, porém com o tempo vemos que é apenas ridícula, pois não há como afirmar que a união de duas pessoas, uma de cada um dos sexos, está falida. O que havia de errado era a expectativa de que, com a liberdade conquistada, ao escolher o par por amor, a felicidade seria consequência obrigatória. Não é. O relacionamento de boa qualidade se constrói; a felicidade acontece mais frequentemente quando vamos buscá-la.
Perceber que escolhemos alguém por amor e que, apesar disso, nossos sonhos se derreteram tão rápido quanto a neve nos trópicos nos causa profundo impacto. O mais frequente é culpar o outro; há também somatizações variadas, dores no peito, acessos de ira, pânico, depressão, insônia além das eventuais infelizes tentativas de suicídio. Também é frequente o caminho mais fácil: trocar de parceiro. Neste caso, é alta a probabilidade de se encontrar diante do mesmo problema algum tempo depois.

 



Escrito por Regina Lopes às 12:41
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Troca de papéis
A CPFL promoveu, em 2009, um Café Filosófico com o psicanalista Contardo Calligaris, que discorreu sobre a mudança dos papéis dos gêneros através do tempo. Ele fala que por muitas décadas o homem viveu fechado em seus ternos representando o papel do macho provedor. Estava muito à vontade com um modelo de relacionamento onde os homens desejam e as mulheres são desejadas. Só quando o desejo das mulheres entrou em cena é que o homem descobriu que, embaixo do seu terno, tinha um corpo desejável. Assista à palestra, na íntegra, pelo site www.cpflcultura.com.br. Procure por O corpo masculino ou A crise do macho.

 

Igualdade
A igualdade de direitos inscrita na Declaração Universal dos Direitos do Homem se replicou na Constituição de inúmeros países. Efetivamente ela ainda caminha claudicante já que o poder continua a atuar marginal (acima) das regras sociais, fazendo com que a igualdade exista, sim, porém seus limites sejam bem delineados (o que está se tornando mais visível a cada dia).
No âmbito do relacionamento afetivo, a igualdade acabou por penetrar nos papéis de cada membro do casal e praticamente implodi-los ainda no século passado e, hoje, mais do que nunca, confunde o relacionamento familiar. Pior: a igualdade de direitos bem como uma certa equalização de poderes é confundida frequentemente com a igualdade absoluta entre os gêneros. Não somos iguais fisicamente, intelectualmente nem emocionalmente. Talvez boa parte das diferenças se deva à formação, aos papéis sociais, etc., mas independentemente da causa, somos diferentes. No casamento antigo, essa diferença era aceita e isso era bom no aspecto do relacionamento afetivo, apesar de admitirmos hoje ser incorreto no aspecto social (domínio do homem sobre a mulher). A aceitação das diferenças individuais expandidas para os diferentes papéis, facilitava a aceitação do outro - seu par - (aceitação genuína e não a tolerância). A clara distribuição de atividades, direitos e poderes entre os papéis era internalizada pelos filhos em um modelo de sociedade, na qual eles viriam a se incorporar e nela interagir (sem essa internalização, hoje), sem um modelo, as crianças não definem limites para si, tornam-se adolescentes perdidos e adultos egocentrados, deprimidos ou ansiosos.
Intracasal, superficialmente, nos incomodamos desde o "terceiro turno" do trabalho feminino, que todos aceitam formalmente não ser adequado (não deveria ser feminino), passando pelo desconforto das tarefas que a mulher rejeita como suas (lavar louça, roupas etc.) e que alguns poucos homens assumem, quase nunca de bom grado.

 

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Até mesmo na cadeia dos animais irracionais, a fêmea escolhe o macho pelos indicadores de que ele é capaz de produzir filhos sadios. A escolha de um cônjuge sempre se fez por interesse, independentemente do âmbito e da época

 

Igualdade entre homens e mulheres?

Há incontáveis pontos onde o balanço contábil dessa igualdade não fecha:
 A começar pelo já citado acima e mais discutido ponto: o terceiro turno de trabalho feminino;
 A entrada da mulher no mercado de trabalho pode ser vista sob o ângulo da redução do nível de emprego em 50%. O resultado foi a queda dos salários. Poucas décadas atrás a boa educação formal era oferecida pelo Estado e os serviços de saúde públicos eram, no mínimo, aceitáveis. Hoje, o rendimento masculino não é suficiente para a manutenção de uma família de 4 pessoas (escolas particulares e seguro-saúde). O trabalho (rendimento) feminino tornou-se, então, indispensável. O sentimento entre os dois gêneros é de insatisfação;
 O homem continua se sentindo responsável pelo sustento da família. A mulher também continua sentindo que o responsável pelo sustento da família é o homem. Dois exemplos:
A mulher que tem mais sucesso profissional que o marido, sente-se mal por "não estar sendo cuidada" por ele! Sente-se mal também ao pagar despesas de lazer (cinema, restaurante, viagens);
Algumas mulheres podem sentir que deveriam ficar com os filhos por alguns anos ao invés de retornar ao trabalho;
 Entre a classe A assalariada há um novo conceito bastante interessante: a mulher considera que o básico do orçamento doméstico deve ser coberto pelo homem; a mulher supriria o adicional ou o supérfluo. Com isso restaria de seus ganhos um pouco para as suas coisas;
 Muitos homens continuam a sentir que a mulher tem obrigações conjugais (sexo);
 Muitas mulheres começam a cobrar que o marido cumpra suas obrigações conjugais (sexo);
 Frequentemente ambos sentem-se cobrados, insuficientes e impotentes diante da realidade;
 Negar-se ao outro deixa de ser apenas uma vingança, mas frequentemente reflete apenas um profundo desencanto;

 

 



Escrito por Regina Lopes às 12:40
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De acordo com as regras fraternais, dentro do conceito de família, um apoia e defende o outro. Hoje, porém, ampliou-se o individualismo e o distanciamento afetivo, com a contabilização de quem tem crédito ou débito

Fraternidade
Trocamos a "guerra conjugal" pela guerra entre os gêneros. Se no antigo casamento havia a queixa feminina frequente ante as regalias masculinas (e podemos incluir aí o direito a eventuais escapadas sexuais), hoje a queixa é mútua, mas não contra o marido ou a esposa e, sim, contra o homem ou a mulher. Não nos sentimos mais "no mesmo barco".
No casamento antigo, no qual os papéis estavam bem definidos pelo pai institucional, podíamos culpar o outro, o indivíduo, por não cumprir o seu papel. Hoje, não há definição de papéis, o que a princípio parece bom, mas nos sentimos sem rumo. Com isso, sequer podemos culpar a "outra parte" do relacionamento. Surge a angústia. Ficamos sós e não sabemos onde nos refugiar. Não há mais o porto-seguro. Não há mais aquele irmão que, apesar das brigas, continuaria sendo sempre o irmão.
Homens e mulheres mudaram. Mulheres expostas à concorrência do mercado de trabalho se tornaram mais agressivas, objetivas e lógicas. Descobrem o prazer do sexo-pelo-sexo (sem a afetividade). Muitas já percebem a armadilha da hipervalorização da beleza, que a torna condição sine qua non ou, pior, seu único atributo. Os homens se tornaram capazes de discriminar mais suas emoções, deixando de se sentirem apenas bem com sua capacidade de prover o lar, assumindo também que desejam ser queridos e que são também (pasmem), românticos. O lado B é que já se percebem sendo usados e reagem a isso. Já se torna evidente uma dificuldade em optar pelo casamento e, no limite, isso é disfarçado através do "morar junto". Cresceu no final do século passado e se amplia rapidamente a atitude masculina de se negar sexualmente à mulher (inconcebível anteriormente). A decepção masculina com a mulher, rara e que ocorria quase apenas depois dos sessenta anos, surge cada vez mais cedo.
O conceito de comunhão universal de bens, no casamento, faliu apesar de ainda existir; a comunhão parcial, que define a equivalência dentro dos diferentes papéis e atividades dos dois gêneros em um casal, é automaticamente assumida pelo Estado nos casos de união informal.

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As mulheres expostas à concorrência do mercado de trabalho se tornaram mais agressivas, objetivas e lógicas e os homens se tornaram capazes de discriminar mais suas emoções

Por outro lado, é crescente o número das pessoas que valorizam suas emoções e estas apontam para a busca de um relacionamento que contenha alguns atributos do conceito de fraternidade: sentir-se relativo ao outro (pertinens); prazer em oferecer, contribuir, em fazer o outro feliz; sentir-se parte de um conjunto maior (família) o que implica que, ao fazer ao outro se faz também a si mesmo (proteção, felicidade, etc.). O pragmatismo obviamente lentifica esse movimento.
Não se justifica apoiar questões da natureza emocional do ser humano sobre nossas habilidades racionais já que somos mais que racionais; nossas emoções existem e não representam um conjunto de aspectos negativos ou prejudiciais à nossa natureza. Ao contrário, nos permitem, por exemplo, conviver com contradições e nos levam a superar nossa natureza animal, assumindo os aparentemente utópicos valores humanos. A formação de um casal e a reprodução são exemplos de utopias que só têm apoio no âmbito emocional já que desde a invenção da imprensa ou, mais precisamente, apenas cinquenta anos depois do surgimento dela, foi impresso o primeiro livro que citava a loucura que é casar e, mais ainda, ter filhos (O Elogio da Loucura, Erasmo de Rotterdan).
A melhor resposta às questões acima foi do poeta Vinícius de Morais que reconhece as emoções e, no Soneto do Amor Eterno, expõe nossa capacidade de conciliar uma contradição (no nível racional) e alcançar o equilíbrio na ambivalência (emocional):

(...que)
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja  imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.



Escrito por Regina Lopes às 12:39
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Consumo voraz


A moda e sua velocidade de renovar padrões e tendências é um estimulante para um dos principais esteios do sistema capitalista: a geração de uma cultura de consumo voraz. É o lema do "ter" para "pertencer"
por Tatiana Martins Alméri

Foto: Shutterstock

A moda atualmente consegue sustentar uma das partes da estrutura do sistema capitalista que certamente faz com que o fluxo financeiro continue em alta rotatividade. A moda consegue garantir que certos produtos fiquem obsoletos em menos de quatro meses, e isso faz com que novas compras sejam feitas e com que o dinheiro seja gasto. Essa configuração ocorre porque as necessidades de consumo estão inseridas no dia a dia das pessoas que fazem parte de uma estrutura global; hoje em dia não basta consumir esporadicamente, o consumo muitas vezes é diário e pode até fazer parte de uma terapia muito utilizada: vou comprar para relaxar.
Esse relaxamento ocorre por uma sensação de saciedade, de necessidade cumprida, ou melhor, de buscas sanadas. Porém, o mais espantoso de tudo é que por um momento a pessoa realmente passa por essa saciedade, a sensação de alívio e, principalmente, de conquista. Mas de onde vem essa sensação se muitas coisas que compramos não estão dentro das nossas necessidades básicas? Nós realmente precisávamos daquilo naquele momento ou ocasião?

A sensação de saciedade ocorre porque ao consumir certamente conseguimos nos encaixar na estrutura social vigente: a busca pelo TER. Porém, essa estrutura é momentânea e deve ser, por essência, assim, para garantir que o fluxo financeiro novamente se concretize. Portanto, a sensação de saciedade vai até o ponto do lançamento de um novo produto, de uma nova moda, mesmo que ela seja algo que está retornando costumes de décadas passadas. Assim, sentimo-nos saciados não pelo objeto em si, mas pelo que ele significa para a sociedade, tanto no seu valor de uso, mas principalmente como um significante social, um símbolo cultural.
Sociologicamente falando, somos construídos pela cultura. Dessa maneira, segundo Taylor, o termo cultura é "todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade" (1871, p.1). Esse conceito pode ser complementado por Kroeber (1949), o qual afirma, dentre outros aspectos, que "a cultura, mais do que a herança genética determina aspectos do comportamento humano". Cito a cultura para conseguirmos fazer um elo entre a essência do sistema capitalista, a moda e a construção do indivíduo moderno.

CULTURA DO CONSUMO
As discussões sobre a cultura do consumo trazem o dilema da fragmentação, da pluralidade, da flexibilidade e hibridização sociocultural dos representantes das formas de vida estabelecidas na sociedade, incluindo nesse contexto assuntos como produção simbólica, rituais de consumo, ciclos de consumo, projetos de identidades dos consumidores, cultura de mercado, padrões sócio-históricos de consumo e a ideologia de mercado de mídia de massa e estratégias interpretativas dos consumidores (ARNOULD apud OLIVEIRA; VIEIRA, 2010).
Na nossa sociedade, o sentimento de pertencimento ao grupo social faz com que a pessoa se sinta aceita e necessariamente não marginalizada; tanto é dessa maneira que, ocasionalmente, quando agimos de uma forma não muito agradável ao grupo, a pena é a exclusão. Podemos aqui apontar ainda mais fundo: quando fazemos algo ilegal a nossa penalização, entre outras, é sermos presos, ou seja, excluídos do grupo. De uma forma mais intensa, quando estamos encarcerados e, mais uma vez, cometemos delitos novamente, somos retirados do grupo e colocados em uma solitária. Falo isso para deixar bem claro o quanto é importante culturalmente pertencer a algum grupo, ser aceito. Tanto é que socialmente a nossa principal penalização é a exclusão, a retirada do indivíduo do grupo.



Escrito por Regina Lopes às 12:20
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Esse sentimento de pertencimento ao grupo está totalmente vinculado à cultura, essa sim é que faz a construção de como nos apresentaremos socialmente, como refletiremos e faremos a diferenciação entre o bem e o mal, de como refletiremos e faremos as nossas escolhas. Essas escolhas que aparentemente são individuais necessariamente sofrem uma enorme influência cultural - do grupo - e a moda é um exemplo clássico dessa influência.
Acreditamos, dentro da nossa "ignorância", que nós somos da maneira que escolhemos, ou seja, livres para optar conforme o modo que achamos melhor. Porém, caro leitor, infelizmente para alguns e felizmente para outros, não funciona muito bem dessa maneira. Somos manipulados a cada momento, e essa manipulação acaba condicionando as nossas escolhas; não nos vestimos simplesmente como queremos, ou não pintamos nossos cabelos da maneira que escolhemos impreterivelmente, nós somos manipulados a agirmos e nos vestirmos, e, pasmem, até pensarmos da maneira que a sociedade nos impõe, o que está entrelaçado à nossa cultura ou em uma cultura suprema.¹ Mas onde estou querendo chegar com essas afirmações? Quero mostrar como funciona a lógica do consumo:



Escrito por Regina Lopes às 12:18
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O consumo faz com que um indivíduo seja inserido em um grupo; qual grupo? O grupo que consome aquele tipo de bens ou serviços que você acaba de comprar. Ao entrarmos no grupo inconscientemente nos sentimos satisfeitos, o que nos traz aquele momento de saciedade, mas essa satisfação é momentânea, dura muitas vezes até o momento que lançam um novo produto.
Quando há o lançamento de um novo produto e não o consumimos, necessariamente saímos do grupo (lembre-se que essa é culturalmente uma das piores penas da nossa sociedade), consequentemente nos sentimos insatisfeitos e somos levados a realizar uma nova compra, um novo consumo para que a entrada no grupo ocorra, a satisfação aconteça e que o ciclo se concretize novamente.

Podemos aqui apontar um exemplo do grupo classe média: A classe média, de maneira geral, atualmente possui um computador em casa. Se você é da classe média e não o possui, certamente sofrerá algum tipo de preconceito, seja no dia a dia entre gozações com amigos até a chamada de atenção no trabalho. Depois de alguns momentos de exclusão, você finalmente consome, compra um computador, o qual lhe insere naquele grupo e, consequentemente, traz uma satisfação até o momento que lançarem um novo produto que aquele grupo está consumindo, como uma calça de um modelo novo, e é neste momento que o ciclo se configure novamente. A insatisfação acontece, e a consequência de tudo isso? Você já sabe, o consumo vai ocorrer.
 



Escrito por Regina Lopes às 12:18
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A existência da moda é uma das grandes sacadas da estrutura do sistema capitalista. As roupas, calçados, maquiagens, penteados, etc. mudam no mínimo a cada estação, isso faz com que os produtos se renovem a cada momento, mas a grande sacada desse setor é que muitas vezes podem ser apresentadas modas espelhadas em outras épocas, o que faz com que compremos novamente os produtos que tínhamos na década de 1970, ou seja, acabamos comprando duas vezes o mesmo produto só que em épocas diferentes, não necessariamente porque gostamos, mas porque o grupo social assim exige.

Cabe aqui ressaltar que a moda não trará novamente algo de cinco anos atrás, pois se corre o risco de eu ainda ter guardado no meu armário e, dessa maneira, não necessitarei fazer a compra.
Essa é a nossa famosa lógica do consumo, a qual está fundamentada na nossa cultura, na estrutura do sistema capitalista, e faz com que, por intermédio de vários patamares, sendo um deles a MODA, o fluxo financeiro continue fluindo concretizando a estrutura do sistema capitalista.

Tatiana Martins Alméri é socióloga pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, mestre em Sociologia Política e professora na Unip e na Fatec (taalmeri2@hotmail.com)

¹Para Bauman (2001), o atual sistema social envolve os sujeitos primeiramente enquanto consumidores, pois somos guiados mais pela sedução e desejos voláteis, nos quais se movem as marcas e os símbolos com uma leveza quase imperceptível nas relações sociais, do que na constituição de laços com nossos semelhantes. Isso se evidencia a medida que os processos de massi cação do consumo e da mídia se intensi cam, provocando uma proximidade maior dos homens com seus símbolos e objetos (representações) produzidos do que com outros homens (BAUDRILLARD, 1995). É assim que, para Baudrillard (1995), constitui-se a cultura do consumo, marcada pela crescente intensidade de relações entre os sujeitos e suas representações em detrimento do entendimento da realidade vivida. Este fenômeno evidencia como se vive com menor alusão e maior ilusão às funções sociais (OLIVEIRA; VIEIRA, 2010, p. 38).

REFERÊNCIAS
BAUDRILLARD, Jean. A Sociedade de Consumo. Lisboa: Edições 70, 2005.

TYLOR, Edward B. La Cultura Primitiva [1871]. Madrid: Ayuso,1977- 1981.

KROEBER, A. Estudos de Organização Social. São Paulo: Livraria Martins, 1949.

OLIVEIRA; VIEIRA. Produção simbólica e sustentabilidade: discutindo a lógica da salvação da sociedade pela mudança nos modos de consumo. Universidade Estadual de Maringá. Disponível em: .



Escrito por Regina Lopes às 12:04
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Betinho cidadania e ação!


"Otimista ativo", o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, driblou a saúde frágil e transformou-se em um agente da solidariedade
Fábio Miranda*

Leandro Valquer

Pode a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, popularmente conhecida como Aids, salvar vidas? Para o sociólogo e ativista político Herbert José de Souza, o Betinho, que se considerava um otimista ativo, a Aids teve um lado bom, se vista por esse ângulo. Para Betinho, que via no comércio de sangue algo sem controle, a peste do século serviu como um controle de qualidade nas doações. No fim das contas, ele mesmo foi contaminado pela síndrome após receber uma transfusão de sangue.
Nascido em Bocaiúva, Minas Gerais, em 3 de novembro de 1935, Herbert de Souza foi um daqueles sujeitos que não vieram ao mundo a passeio. Veio, sem dúvida, a trabalho, e de um jeito nobre: ajudar quem mais precisa. Costumava dizer que era um azarado com sorte, já que contraiu hemofilia, doença que herdou da mãe, que tem como principal característica a não coagulação do sangue, ou seja, qualquer corte na pele é motivo de preocupação, uma vez que esse fluido pode vazar por um tempo muito maior do que em pessoas saudáveis.
Como se não bastasse, na adolescência, teve tuberculose, e foi obrigado a ficar confinado num pequeno quarto, nos fundos da casa, para que não contaminasse seus outros sete irmãos, entre eles o famoso cartunista Henrique de Souza Filho, o Henfil, também hemofílico.
Morando ora em penitenciária ora em funerária, devido às profissões do pai, Betinho fez da própria condição de saúde uma bandeira para conseguir resultados melhores. Em 1962, formou-se em Sociologia e Política e Administração Pública na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais. Nessa época também ingressou em movimentos católicos como a Juventude Universitária Católica (JUC), e posteriormente viajou pelo país junto à União Nacional dos Estudantes (UNE) e o Centro Popular de Cultura (CPC). Em seguida, trabalhou na coordenação e assessoria do Ministério da Cultura e na Superintendência de Reforma Agrária, na mesma época elaborou projetos para a Organização das Nações Unidas (ONU) e Comissão Econômica para a América Latina (Cepal).

 

 

Veio o Golpe
Os militares tomaram o país em 1964 e tiraram o presidente João Goulart do cargo que havia herdado de Jânio Quadros, e com o ex-presidente vários brasileiros foram convidados a sair do Brasil. Na pior das hipóteses, os insurgentes iam para cadeia ou desapareciam do mapa. Herbert de Souza aceitou a primeira sugestão após, ainda, lutar contra a ditadura. Passou sete meses no Uruguai e viajou pela Europa, até que em 1970 foi morar no Chile, onde assessorou o então presidente Salvador Allende e deu aulas na Faculdad Latinoamericana de Ciencias Sociales. Quis o destino, porém, que Betinho ainda enfrentasse mais uma ditadura, desta vez no país andino, sob a batuta do general Augusto Pinochet. De lá, foi parar na embaixada do Panamá, em 1974, depois seguiu para o Canadá e o México.
Nesses locais, exerceu o cargo de diretor do Conselho Latino-Americano de Pesquisa para a Paz (Ipra) e foi consultor da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) em assuntos ligados América Latina. Além disso, foi coordenador da Latin American Research Unit (Laru), professor de doutorado de Economia da Divisão de Estudos Superiores, no México, e diretor de Brazilian Studies, no Canadá.

 

Abertura Política
Em 1979, os pesados anos de chumbo já tinham perdido muito de sua força, e o presidente João Batista Figueiredo ficou com a missão de fazer a transição do regime autoritário, para a democracia, embora ainda demoraSe mais sete anos até que o primeiro presidente civil fosse eleito após mais de duas décadas de trevas.
Betinho, do mesmo jeito que foi embora com muita gente, regressara com uma quantidade louvável de pessoas ao Brasil. No entanto, a luta do sociólogo estava voltada para a ampliação da justiça e da democracia nacional. Pouco após sua chegada, ajudou a fundar o Instituto de Estudos da Religião, o Iser, e presidiu a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), fundada em 1986 e uma das mais importantes e respeitadas instituições em defesa dos portadores do HIV. Até o limiar de sua vida, dedicou-se à Coordenação Geral do Instituto Brasileiro de Análises Socioeconômicas (Ibase).



Escrito por Regina Lopes às 12:01
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A doença
Por ser hemofílico, Betinho volta e meia precisava se submeter a transfusões de sangue, e em uma das inúmeras que já tinha feito, em 1986, o sociólogo contraiu Aids. O caso não ficou isolado apenas em Betinho. Dois dos seus irmãos, Henfil e o músico Francisco Mário de Souza, mais conhecido como Chico Mário, igualmente hemofílicos, não passaram incólumes pela doença e vieram a falecer num intervalo de três meses em 1988. Durante o velório de Henfil, Chico Mário ainda comentou com Betinho. "Hoje é o Henfil, amanhã serei eu, e você irá daqui a três anos... Bem, digamos cinco!".
Betinho foi mais resistente que seus familiares e teve tempo de comemorar a suposta cura da doença, num artigo publicado no Jornal do Brasil, em 1992. "Foi numa manhã comum, como qualquer outra, que abri o jornal e li a manchete: "Descoberta da cura da Aids!". A princípio, fiquei deslocado na cama como se a Terra tivesse saído do lugar e meu quarto estivesse mais à esquerda que de costume", diz o sociólogo logo no começo do texto, para depois lamentar no final a ausência dos dois irmão que não puderam presenciar o fato da mais nova descoberta da ciência. Como se sabe, a cura não se mostrou eficiente, e Betinho começou a se engajar em outras frentes também.

Leandro Valquer

Cidadania
Em outro artigo, desta vez publicado no jornal O Estado de S. Paulo, não deixa escapar seu lado político e comemora a destituição de Fernando Collor de Mello da presidência da república. Collor teve direitos políticos suspensos por oito anos. Betinho animou-se com a juventude do Brasil, que ficou conhecida conhecida como geração dos "Caras Pintadas". "Aos 56 anos de idade, sobrevivente de muitas caminhadas, estou nessa. Não creio no Estado como solução, creio na sociedade. Não creio no poder, creio na liberdade. Não creio nos que se acomodam e desistem. Creio nos que pensam e agem em função do futuro e da felicidade de todos. Que bom estar vivo para ver o que estou vendo nas ruas de meu país!", explica no final do texto, não sem antes condenar o trágico governo do atual senador por Alagoas.
Betinho participou, em 1990, do movimento Terra e Democracia e esteve na liderança, em 1992, do Movimento Pela Ética na Política. Após este período turbulento da política nacional, Herbert de Souza voltou suas forças para quem mais precisa: os pobres.
Embora frágil fisicamente (até um simples corte nos lábios era motivo de preocupação), Betinho era um gigante nas ideias, que não ficavam apenas no papel: ele era idealizador e executor de seus próprios projetos. E, sem dúvida, duas das maiores realizações foram a Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida e o Natal sem Fome. O primeiro ganhou notoriedade nacional logo no primeiro ano, em 1993, com aprovação de 96% da população brasileira - índice capaz de causar inveja em qualquer presidente. A campanha do Betinho, como ficou conhecida, conseguiu aglutinar outros movimentos sociais para lutar lutar em torno da cidadania, do direito ao emprego e da luta pela terra.
No ano seguinte, foi a vez do Natal sem Fome arrecadar mais de 600 toneladas de alimentos. No entanto, até 2005, o programa angariou mais de 30 mil toneladas de alimentos que foram doados a mais de 15 milhões de pessoas no Brasil.
O sociólogo Herbert de Souza ainda fez um pronunciamento na ONU na reunião preparatória para a Conferência Mundial sobre o Desenvolvimento Social, em agosto de 1994. E em 1995 fez parte do movimento Reage Rio, em que fez uma caminhada pela paz. Betinho ainda elaborou agendas sociais para a cidade do Rio de Janeiro, na época uma das candidatas à sede dos Jogos Olímpicos de 2004, e foi homenageado pela escola de samba Império Serrano com o tema "E verás que um filho teu não foge à luta", e quando entra na Avenida, faz a Marquês de Sapucaí cair em lágrimas. Pudera, alguém que derramou lágrimas por um Brasil inteiro, e tinha como um de seus lemas "Quem fica na memória de alguém, não morre"; Betinho está vivo!

 



Escrito por Regina Lopes às 12:00
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Cronologia

03/11/1935: Nasce em Bocaiúva, interior de Minas Gerais, filho de Henrique e Maria da Conceição Figueiredo de Souza.

1950 a 1953: Por causa da tuberculose, vive acamado num quarto nos fundos da casa.

Fim dos anos 1950: Começa a militância política na Juventude Estudantil Católica (JEC) e, depois, na Juventude Universitária Católica (JUC).

1964: Com o golpe militar, exila-se no Uruguai.

1965: O filho Daniel, de seu casamento com Irles Coutinho de Carvalho, nasce clandestinamente em um hospital de São Paulo.

1967: Exilado na Europa, retorna, mais uma vez clandestinamente.

1971: Trabalha com identidade falsa, como operário no ABC paulista. A repressão aumenta e ele parte mais uma vez para o exílio, desta vez passa por Chile, Panamá, Canadá e, enfim, México

16/09/1979: Com a Lei da Anistia, retorna ao Brasil com a identidade verdadeira.

1981: Funda o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), cuja meta é democratizar o acesso à informação.

1986: Um exame atesta sua condição de portador do vírus HIV. Neste mesmo ano, funda a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia).

04/01/1988: Morre o cartunista Henrique de Souza Filho, o Henfil, irmão de Betinho, em decorrência do vírus da Aids, aos 43 anos de idade.

14/03/1988: Morre, aos 39 anos, o outro irmão de Betinho, Francisco Mário de Souza, mais conhecido como Chico Mário, também vítima da Aids.

09/1988: Indicado por 11 entidades cariocas, é empossado primeiro defensor do povo do município do Rrio de Janeiro.

1991: Recebe o Prêmio Global 500, da Organização das Nações Unidas (ONU), por sua contribuição em favor da ecologia, pela criação do Ibase e pela luta para a despoluição da Baia da Guanabara e a preservação da Amazônia. Cria o Instituto Brasileiro de Análises Socioeconômicas, (Ibase).

1992: Começa a campanha para que os restaurantes, em vez de jogar comida fora, doem para comunidades carentes. Surge aí o embrião da Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida. Participa do Movimento pela Ética na Política, um dos alicerces para a campanha que resultou no impeachment do presidente Fernando Collor.

1993: Em todo o país, comitês da Ação da Cidadania, popularizada como "Campanha contra a fome", fica mais conhecida como "Campanha do Betinho".

1994: Lança a Campanha do Emprego. Recebe o Prêmio Eco 94, como hors concours, pela campanha contra a fome. Pronunciamento na ONU, na reunião preparatória para a Conferência Mundial sobre o desenvolvimento Social. Lança a campanha "Natal sem Fome", que arrecada, no primeiro ano, 600 toneladas de alimentos.

28/11/1995: Toca o sino da paz após a Caminhada pela Paz na Avenida Rio Branco, organizada pelo Movimento Reage Rrio.

11/1996: Defende, junto a integrantes do Comitê Olímpico Internacional, o cumprimento da Agenda Social na campanha do Rio para sediar a Olimpíada de 2004.

05/07/1997: Vítima de uma hepatite crônica, diagnosticada em 1994, Betinho é internado no Beneficência Portuguesa. Muito debilitado e sem conseguir se alimentar, o sociólogo sofre de pneumonia bacteriana, infecção oral e insuficiência hepática.

30/07/1997: O tratamento não corresponde às expectativas, e Betinho pede para voltar para casa. No apartamento, em Botafogo, os médicos montam uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) portátil.

09/08/1997: Pesando apenas 39 kg, com quadro clínico irreversível, Herbert de Souza morre, cercado de familiares, às 21h10.


* Fábio Miranda é jornalista e escreve para esta publicação



Escrito por Regina Lopes às 11:58
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As coisas continuadas e as não continuadas


LÚCIO PACKTER é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS), é coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Universidade Moura Lacerda, em Ribeirão Preto (SP), e da Faculdade de Filosofia São Miguel Arcanjo, em Anápolis (GO). luciopackter@uol.com.br

Ela dizia que era importante você ter bons amigos e compreendia quando em um sábado à tarde você jogava futebol suíço na quadra de grama. Ela sabia que você só tinha ‘Santo’ no sobrenome, herdado de sua avó, e que um passado bravo de mulherio e de bebidas destiladas acompanhava a cicatriz em seu queixo. Ela tinha nisso um certo deleite. Assim como quando você viajou por dois meses pelos escarpados chãos das encostas das serras; o celular recebia mensagens de incentivos e coisas de Power Point. E ela gostava daquele primo que somente você gostava, um sujeito de difícil trato. E você acreditou que seria para sempre, que ela adoraria viver naquele pequeno apartamento de fundo, sem sol, com você. A imagem que lhe vinha era daquela mulher linda, vestindo a sua camiseta somente, parada diante do horror de sua geladeira aberta com um semissorriso de condescendência no rosto. Você acreditou, Fernando, acreditou que Márcia lhe asseguraria isso para sempre, sempre dali para algo melhor, como mais tempo para o futebol e uma geladeira ainda mais sem nada dentro. Como você ignorou que se tratava de um capítulo entre o se conhecerem e os compromissos de casamento e filhos, sua vida, que estaria perfeita se aquele capítulo durasse para sempre, tornou-se toda ao contrário no capítulo seguinte.

Você e Márcia encontraram-se no capítulo II, que para você seria o final, que para ela seria prefácio ao capítulo III. Você não sabia que estava se casando com a Márcia do capítulo III e ela também não.

Com o divórcio, 5 anos depois, você então encontrou na cantina uma Márcia com outro nome, outra cor, outro sotaque, formada em Economia, uma outra Márcia, e soube que ela estava no capítulo II, mas agora você tinha 55 anos, havia comprado uma motocicleta com um número importante de cilindros, estava desejoso do capítulo III.


CONEXÃO ENTRE IDEIAS

Um estudante de Filosofia aprende nos primeiros meses de curso que o mundo evoluiu do caos em direção à ordem, à calma, às leis, e que assim surgiram os nossos sofás e os canteiros do nosso jardim. Raras vezes aprende que o caminho usual das coisas pudesse ser diferente, como se de uma ordem inicial, e pela propriedade e funcionamento que unem as coisas, pudéssemos obter como consequência, uma sucessiva desordenação dos conteúdos, uma trajetória continuada rumo a dubiedades, confusões, incertezas. O desarrazoado como direcionamento.

Nesta acepção, entre as possibilidades, teríamos inúmeras maneiras pelas quais as ideias poderiam estar ligadas umas às outras. O esquecimento, por exemplo, poderia estar associado a um sentido de urgência, de importância, tal que levasse a lembranças de outros elementos. Assim, esquecer do que se fez em uma festa pode levar a pessoa a lembrar intensamente do que houve antes dela.

Lacunas entre dois conceitos, o vazio entre duas concepções, podem fazer precipitar à mente elementos predisponentes que vagavam e que aguardavam uma espécie de espaço para poderem se precipitar e aparecer. Isso pode ocorrer quando a pessoa silencia a mente, enquanto realiza um trabalho mecânico qualquer, e subitamente se lembra de algo pendente, como uma conta a vencer; algo que de outro modo não se lembraria.

Estes são dois entre muitos exemplos de conexões entre ideias. Mas existem muitos outros que documentamos nos consultórios em Filosofia Clínica.

Uma ideia pode vir seguida de outra sem que exista qualquer ligação entre elas. Uma ideia pode estar com outra como em um quadro surrealista no qual uma escada de madeira encontra um céu anil em uma imagem cuja coerência é zero. Há diversos eventos na vida que são assim. Mas dificilmente serão entendidos e identificados se nós quisermos estabelecer a priori que tenham parentesco, que tenham lógica, que tenham vínculos necessários.

Pensamentos sofrem fraturas, rompem, acabam, são frágeis, assim como são diferentes destas mesmas coisas. Seguir seus caminhos é uma parte do entendimento possível sobre eles.



Escrito por Regina Lopes às 11:36
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ASSOCIAÇÃO DE IDEIAS

Embora o fato de que as ideias diferentes estejam conectadas seja tão evidente para não ser percebido pela observação, creio que nenhum filósofo tentou enumerar ou classificar todos os princípios de associação, assunto que, todavia, parece digno de atenção. Para mim, apenas há três princípios de conexão entre as ideias, a saber: de semelhança, de contiguidade – no tempo e no espaço – e de causa ou efeito. Que estes princípios servem para ligar ideias, não será, creio eu, muito duvidoso. Um quadro conduz naturalmente nossos pensamentos para o original; quando se menciona um apartamento de um edifício, naturalmente se introduz uma investigação ou uma conversa acerca dos outros. E, se pensamos acerca de um ferimento, quase não podemos furtar-nos a refletir sobre a dor que o acompanha. Entretanto, é difícil provar tanto para nossa como para a satisfação do leitor que esta enumeração é completa e que não há outros princípios de associação. Cabe-nos, portanto, em tal situação, recapitular vários exemplos e examinar cuidadosamente o princípio que liga mutuamente os diferentes pensamentos, e apenas detendo-nos quando tornarmos o princípio tão geral quanto possível. E, à medida que examinarmos outros exemplos e o fizermos com o máximo cuidado, adquiriremos a certeza de que a enumeração, estabelecida a partir de um conjunto de observações, é completa e inteira

 

Trecho de Ensaio sobre o Entendimento Humano, de David Hume

 



Escrito por Regina Lopes às 11:35
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Ética

A TV e a agenda setting: a Ágora do mundo atual

CLÓVIS DE BARROS FILHO é professor de Ética da ECA/USP e Conferencista do Espaço Ética. www.espacoetica.com.br
Estava na feira com minha esposa e filha quando na banca de legumes fomos abordados por uma simpática senhora que nos perguntou: “O que vocês acharam daquele cozido que o MC Leozinho preparou com batata doce? Não é surpreendente ver um funkeiro nos inspirando a fazer almoço?” Olhei para minha esposa buscando uma possibilidade de atribuir sentido àquela pergunta. Ela virou para a senhora e respondeu: “O espanto se deve a uma construção social do estereótipo de funkeiro que é limitante como identidade e preconceituosa”. Aplaudi a resposta sem entender a pergunta.

 

Após o término da conversa, minha esposa explicou que a questão levantada na banca fazia referência ao programa A Fazenda, reality show de grande sucesso de audiência. Na volta da feira, sou abordado pelo zelador do prédio, um senhor simpático e solícito que sempre nos ajuda a carregar as compras: “O senhor viu que a ex-namorada do Michel pode posar nua? Pois é, ela quer se vingar dele por causa da Tessália.”

Também não atribuí sentido ao que foi dito. Quem é Michel? Temer? E quem é Tessália? É mais um caso que envolve escândalos sexuais com deputados? Rapidamente fui advertido de que se tratava de integrantes do Big Brother, outro reality show, e que os envolvidos não tinham nenhuma outra importância social além de serem simples integrantes desse programa. Passei a me perguntar: como nós chegamos ao ponto de discutir sobre a vida íntima de pessoas, até então desconhecidas, em detrimento de questões políticas muito sérias como a eleição presidencial?

Para me responder, tive que recorrer a reflexões oriundas da Filosofia Política e da comunicação. Na Grécia antiga, filósofos como Aristóteles refletiam sobre questões referentes ao funcionamento do sistema democrático. Na Ágora ateniense os cidadãos se reuniam regularmente para governar a cidade. Sem reis e sem oligarcas. Quem propunha e votava os temas políticos eram os próprios cidadãos. É o que eles entendiam por democracia, o governo de todos. Sem representantes. Sem parlamentares. Pois, como bem observa Aristóteles, se os cidadãos decidissem escolher representantes políticos, não seria um estado democrático. Uma eleição que escolhesse os melhores representantes para governar a pólis configuraria uma aristocracia, que em grego significa ‘o governo dos melhores’. Dos mais virtuosos e aptos. Não de qualquer um. Numa democracia todos deveriam participar diretamente da Política. Sem intermediários.

Para que esse sistema funcionasse era necessário sortear regularmente uma pessoa para presidir as mesas de discussão. Ele não poderia ser eleito, pois isso seria considerado aristocrático. Perceba que estamos falando de igualdade, e não necessariamente, do melhor. Esse mediador tinha como função estabelecer uma “Ordem do Dia”. Essa ordem servia como referência para se discutir os assuntos referentes à cidade pelos cidadãos. Essa “pauta” definia o que era politicamente pertinente do que não era.



Escrito por Regina Lopes às 11:32
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"As pessoas falam sobre futebol, atuação de atores e corrupção de deputados sem precisar ir ao estádio, assistir à gravação de novelas no set ou ir até a Câmara. Tudo isso graças aos meios de comunicação. Em especial, à televisão."

Os historiadores advertem que as discussões políticas daquele período não eram tão filosóficas como o senso comum supõe. Os assuntos mais discutidos na democracia ateniense eram organizações de festas e a composição do quadro de atletas atenienses nos jogos olímpicos. Nada muito diferente de um centro acadêmico que conheci em renomada faculdade particular de publicidade. Os gregos também discutiam, com razoável frequência, questões relativas aos impostos e leis.

Na sociedade contemporânea, não nos reunimos mais em lugares específicos para nos informar e discutir sobre os assuntos públicos. Mesmo porque não haveria espaço físico para isso. Nossa participação na vida pública se dá através dos meios de comunicação. O teórico Maxwell McCombs constatou que os assuntos agendados pelos meios de comunicação são equivalentes aos assuntos discutidos pelos cidadãos. Assim, criou a teoria do agenda setting. Ela afirma, basicamente, o seguinte: as agendas da mídia determinam as agendas públicas de discussão. Não só jornais, mas novelas, seriados, filmes e publicidades são discutidos em bares, ônibus e churrascos de final de semana. As pessoas falam sobre futebol, atuação de atores e corrupção de deputados sem precisar ir ao estádio, assistir à gravação de novelas no set ou ir até a Câmara. Tudo isso graças aos meios de comunicação. Em especial, à televisão.

Essa influência dos meios de comunicação em nossas vidas é tão marcante que chega a passar despercebida. É só começar a trabalhar no horário das novelas e dos programas de entretenimento que passamos a nos dar conta de sua força. Acho que este é o motivo de nós, professores, sermos tão ressentidos. Nos sobrecarregamos de trabalho à noite para um ganho extra indigente e ainda somos excluídos da vida social quando o assunto é novela, reality show ou partidas de futebol às quartas-feiras.

O que McCombs não tinha previsto, ao contrário de MC Leozinho, era a exata força do agendamento televisivo. Acreditava-se que os conteúdos midiáticos faziam sucesso por causa de sua relevância social. Os reality shows em questão provam que não é bem assim. Quando se discute na feira sobre os dotes culinários de um funkeiro ou sobre os dilemas amorosos de pessoas socialmente pouco relevantes, pode ser sinal de novos tempos. De uma era midiática onde o totalmente banal se impõe as normas de uma sociedade de espetáculos superficial. Mais preocupada com a diversão dos cidadãos do que com seu bem-estar.

 



Escrito por Regina Lopes às 11:18
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Os vieses da vingança
Alguns filósofos a encaram como um reparo desejável contra a injustiça, outros como desnecessária por abalar a tranquilidade de quem a persegue. Apesar de opostas, as duas visões concordam em um ponto: a vingança interfere em nossas possibilidades de ser feliz

Por Arthur Meucci

Revista Filosofia

Arthur Meucci é graduado e pós-graduado em Filosofia pela USP, membro da Associação Filosófica Scientiae Studio e do Grupo de Estudos de Filosofia da Comunicação (ECA/USP). É professor de Filosofia e consultor do Espaço Ética. arthur@espacoetica.com.br

Pensar sobre a vida que vale a pena se viver é uma reflexão filosófica importante e árdua. Afinal, o que seria mais essencial do que pensar sobre a vida que se vive ou da que se pretende viver? O que seria mais urgente do que pensar em nossa própria felicidade?

Há muitas propostas e discussões na Filosofia sobre este assunto. Um deles é a vingança. Mas a vingança não é um tema muito agradável. Também não parece ter muita relação com a felicidade. Quem já não quis se vingar ou já se vingou de alguém antes? Quem nunca passou pela vida sendo injustamente lesado e quis dar o troco?

Constatamos, então, a importância deste tema para se viver bem. Felizmente, a vingança, ao contrário do amor e da amizade, pode ser passageira e ocasional. Porém, quando o sentimento surge, é capaz de mudar nossas vidas. Na maioria das vezes, para pior. Por isso, tantos pensadores refletiram sobre este tema. E nós aqui faremos o mesmo.


Jabhal e Leydianni

Embalado nos enredos de sucessos dramáticos não hollywoodyanos, a fictícia história de Jabhal e Leydianni servirá de ilustração para nos guiar pelo pensamento de Aristóteles sobre a justiça e a vingança. Jabhal Matsubara, típico morador da Móoca, conheceu uma jovem, Leydianni Jabirosca, nas aulas de Ética em uma universidade paulistana. Eles passaram a trocar olhares, sorrisos, gracejos. Ao relatarem sobre suas vidas, Leydianni se disse noiva, para tristeza de nosso herói. Ele desiste de estreitar relações, porém, aos poucos, ela se aproxima com segundas intenções. Dentre outras coisas, pedia ajuda em seus trabalhos acadêmicos. Disse que estava com dificuldades para estudar por causa de seu noivo, relatado como uma criança mimada e egoísta, o que gerou no rapaz um misto de constrangimento e compaixão.

Em A escola de Atenas, de Rafael, Aristóteles caminha com a Ética nas mãos. O filósofo grego defende que a injustiça deve ser punida e que tal postura é própria do homem virtuoso

Leydianni o provocava de diversas formas e ele, sem muita questão de resistir, se aproveitava. Entrou no jogo da sedução. Quando Jabhal, preocupado, questionava sobre seu comportamento ela pedia desculpas e dizia estar insegura como mulher por causa de seu relacionamento. Para se justificar, contou que sua futura sogra saía semanalmente do interior de Salto para limpar a casa de seu noivo e a condena pela falta de higiene do lugar. A mãe dele fazia questão de comprar e fiscalizar coisas simples, como a água que eles bebiam, por exemplo. No meio do semestre, ela aparece chorando. Deitou-se no colo de Jabhal e contou que sua sogra ficava falando das qualidades da ex-namorada de seu noivo. Ao reclamar com ele sobre tal atitude, ele acabou mostrando-se indiferente. Ela dizia que, em suas noites, sofria com a frigidez sexual de seu parceiro, que não a satisfazia e que, muitas vezes, obrigava Leydianni a fingir. Ele, rotineiramente após seus fracassos, fugia da cama e corria para entrar na Internet no intuito de conversar com outras mulheres pela madrugada Jabhal se desesperava com os relatos de Leydianni. Ofereceu-se para ajudá-la. Ela disse que queria se entregar ao nosso herói, mas que estava com medo de seu noivo e não sabia das reais intenções do rapaz. Por isso, ela pediu uma prova de amor antes de se entregar. Uma confissão pública de afeto e trinta mil reais para pagar as dívidas deixadas pelo noivo em seu nome. Jabhal, movido por um misto de amor, culpa e compaixão, ofereceu tudo o que ela pedia.

 

Porém, depois de entregue o dinheiro, ela desapareceu. Jabhal, preocupado com seu paradeiro, tenta solicitar informações na universidade para encontrála. Inocente, imaginou que o noivo tinha descoberto as reais intenções dela e a castigou. Quando ele se apresentou na universidade, os seguranças da instituição o repreenderam. Leydianni, neste entretempo, fez reclamações na diretoria da faculdade contra as "perseguições" que o nosso herói estaria realizando. Disse que se sentia ameaçada, que iria trocar de universidade e proibiu a instituição de passar seus dados pessoais. Por sorte, um amigo de Jabhal, que trabalhava na secretaria, conseguiu o endereço dos pais dela na capital paulistana.

Jabhal deveria ir atrás de Leydianni e se vingar? Buscá-la para reaver o dinheiro e limpar seu nome e sua honra na universidade? Eis aqui o mote para o debate entre quatro importantes correntes do pensamento ocidental.



Escrito por Regina Lopes às 11:15
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... não somos louvados ou censurados por causa de nossas emoções (um homem não é louvado por estar atemorizado ou colerizado, nem é censurado simplesmente por estar encolerizado, mas por estar encolerizado de certa maneira). (...)

Quando, porém, uma pessoa age [prejudicando outro] deliberadamente, ela é injusta e é moralmente deficiente. Por isto se considera com razão que os atos devidos à cólera não são premeditados com intenção criminosa, pois quem inicia a ação não é a pessoa que age sob o efeito da cólera, e sim aquela que encoleriza o agente. Aristóteles, Ética a Nicômacos

 

Vingança do virtuoso

Aristóteles, filósofo das virtudes, tem na justiça um especial apreço. O homem, em sua concepção, é um animal social dotado de logos (discurso, razão). Sua concepção finalista do universo faz crer que tudo o que existe está engajado numa ordem universal. Tudo serve para algo, ou seja, tem uma finalidade. Assim, a finalidade da árvore é resfriar o solo, disponibilizar madeira e, em algumas espécies, dar frutos. A finalidade da água é refrescar e nutrir os seres vivos. A finalidade da minhoca é preparar o solo para as plantações. Já o sol existe para esquentar e iluminar.

 

Ilustração de Hamlet, de William Shakespeare, por Edwin Austin Abbey. Trata-se de uma tragédia que gira em torno da vingança. O príncipe, ao descobrir que seu tio matou seu pai para casar-se com sua mãe e assumir o trono, finge-se de louco para conseguir vingar-se dele

Mas e o homem? Qual a finalidade dele? Qual o seu lugar natural? O homem é um animal complicado para os aristotélicos. Enquanto os demais seres vivos possuem instintos aguçados, que dizem como eles devem viver em qualquer situação, o homem não nasceu com tal capacidade. A única coisa que o diferencia dos demais é o logos, que lhe confere a liberdade de poder agir e viver de várias formas possíveis. Porém, o estagirita nos alerta para o fato de que seja qual for a vida que o homem escolha, ele só viverá bem na pólis. Na cidade, com os demais homens. Viver engajado na sociedade não basta para ser eudaimonico, feliz, é verdade. Porém, se coloca como condição essencial para desenvolver suas finalidades. Não é possível, em sua perspectiva, que os homens consigam conviver manifestando todo o seu potencial em uma sociedade sem regras ou sob a ameaça constante destas serem quebradas.

A reação colérica frente ao prejuízo deliberado de uma pessoa sobre a outra é vista por Aristóteles como emotiva e justificável. É compreensível e aceitável que Jabhal procure Leydianni para acertar contas. Ela o feriu deliberadamente no campo emocional, econômico e em sua honra ao difamá-lo na universidade. Por isso, uma eventual vingança tem como agente Leydianni por tê-lo prejudicado e não Jabhal, que executaria tal retaliação. A vingança é uma reação natural das capacidades morais.

A reação colérica frente ao prejuízo deliberado de uma pessoa sobre a outra é vista por Aristóteles como emotiva e justificável


Uma das mais antigas leis existentes, a lei de talião (do latim, significa tal ou igual), conhecida como "olho por olho, dente por dente", busca uma correspondência entre o mal causado e o castigo. Ela aparece no código de Hamurabi, documento da antiga Mesopotâmia

Sendo permitida a vingança em termos morais e jurídicos, cabe uma outra pergunta: deve Jabhal se vingar? A resposta aristotélica é sim. Sendo um homem virtuoso, ele não deve aceitar, sob nenhuma hipótese, a injustiça. Se a polícia e o direito não conseguem reparar os danos financeiros e da sua imagem, cabe ao nosso herói procurá-la no intuito de restituir o seu dano. Ele deve ser comedido, respeitador da lei, e por isso não pode matá-la, por exemplo. Mas cabe a ele achar a punição mais adequada.

Aristóteles vê a ira motivada por uma injustiça como algo positivo. Essencial para os homens virtuosos. O sábio jamais deve se aquietar frente ao ato injusto. O sentimento de ódio que ele cultiva frente ao mal é essencial para atemorizar todo aquele que pretende lhe causar um dano. Em certos aspectos, este sentimento colérico representa a marca da justiça incorporada nos homens bons. Leydianni, de acordo com os conceitos de Aristóteles, é mau-caráter. Ela não incorporou de maneira eficiente as virtudes morais para viver bem em sociedade e consigo mesma. Por isso, compromete a felicidade de todos. Não é a toa que os deuses costumavam se vingar de homens maus, mesmo que estes não tenham feito nada contra tais divindades. O justo não pode tolerar a injustiça.

O homem virtuoso deve ter coragem de tomar partido contra o injusto. A reação impulsionada pela moral deve ser guiada por um hábito que, quando afetado, reage. Buscar a justiça, mesmo que seja difícil, é um dever que se impõe, tanto pela razão quanto pela emoção incorporada. A ira que move a vingança, apesar de destrutiva e dolorosa, é essencial para mantermos relações felizes. Felicidade que não diz respeito somente a Jabhal, mas a todos os homens que se espelharão em tal ação ou que temerão as possíveis reações vingativas que podem surgir de uma ação má.



Escrito por Regina Lopes às 11:15
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Platão, Sêneca e Aristóteles em ilustração de um manuscrito medieval. Sêneca condena, em todas as situações, a vingança. Segundo ele, a ira presente na vingança deve ser evitada porque quem a sente tem a felicidade abalada
  

Reprovação do estoico

Para os estoicos, a boa vida tem como finalidade um estado de ataraxia. Este termo designa tanto uma tranquilidade corporal quanto da alma. Um homem deve levar uma vida que não comprometa o bom funcionamento do seu corpo bem como não perturbe seu espírito com ansiedades, angústias, medos, culpas etc. Afinal, como uma pessoa pode viver bem sentindo dores pelo corpo e inquieta com preocupações?

Segundo os estoicos, para que a natureza garantisse a nossa felicidade, ela nos ofereceu um valioso instrumento: a razão. Apesar das muitas diferenças em relação aos aristotélicos, os estoicos concordam que a razão (logos) é parte fundamental para se viver uma vida boa. Para Zenão e seus discípulos, a razão tem como função nos defender das agressões físicas e psíquicas. Sendo a natureza e os demais homens potencialmente ameaçadores da alegria e da vida cabe à razão evitar encontros tristes com o mundo. A razão serve para termos consciência da realidade, evitando que os homens se coloquem em perigo.

 
Vingança de Herodias, por Juan De Flandes (1496).Herodias, que não gostava de João Batista, convenceu sua filha Salomé a pedir ao rei Herodes de Antipas - que havia prometido a ela o presente que quisesse - a cabeça dele

Na concepção estoica, o homem é um ser natural como qualquer outro. Por isso, deve aprender com a natureza como viver bem e se ordenar no cosmos. Os animais possuem uma vida simples, sem luxos ou preocupações com o passado ou com o futuro. Gozam a vida no momento, sabem aproveitar o melhor do instante bem vivido com cautela, sem exageros, protegendose instintivamente quando são ameaçados. Assim também deve ser a vida dos homens. Tranquila, simples, sem a busca de objetivos desnecessários a vida, sabendo viver o instante e evitando dores físicas, arrependimentos e frustrações.

Entre estes pensadores, o que melhor refletiu sobre a vingança foi o neoestoico Lúcio Sêneca. Preocupado com o comportamento belicoso dos homens de seu tempo, começou a refletir sobre todos os sentimentos destrutivos que levam os homens à tristeza. Entre eles, dedicou-se à ira. Sua origem, como ele bem observa, está na esperança, na capacidade humana de ter expectativas irreais sobre o mundo, em um conflito entre um mundo desejado e o mundo que se apresenta.

Para Sêneca, qualquer tipo de vingança é condenável. Inclusive a de Jabhal. O filósofo diria que nosso herói não foi sábio e por isso sofre. Sua ira poderia ser evitada. Por isso, ele não tem o direito de descontar sua raiva nela.

Poderíamos perguntar a Sêneca: "- Não existia a possibilidade de Leydianni falar a verdade e se mostrar uma pessoa boa? Não valeria, se fosse verdade, correr o risco?" Ele concordaria com a primeira pergunta, mas não com a segunda. Imaginemos, hipoteticamente, que Leydianni fosse sincera. A pergunta que um sábio se faria é a seguinte: seria uma boa ideia se relacionar com uma mulher como Leydianni? Que futuro promissor se poderia ter ao lado de uma mulher que, quando insatisfeita com a relação, seduz outros homens desmoralizando o companheiro? O que lhe garantiria não ter o mesmo destino daquele noivo? Mesmo se a história fosse outra, Jabhal não viveria tranquilo. Sofreria no decorrer da relação. Sendo boa ou má, ela é desequilibrada em relação ao cosmos. Seria, independente de sua escolha, infeliz. Por esses motivos, os animais não se vingam. Agem somente para sobreviver. E assim deve ser a vida do homem. Extirpando de si comportamentos não naturais.

 

Mas se alguém agir premeditadamente contra o seu próximo, matando-o à traição, tirá-lo-ás do meu altar, para que morra. O que ferir a seu pai, ou a sua mãe, certamente será morto. E quem raptar um homem, e o vender, ou for achado na sua mão, certamente será morto. (...) Mas se houver morte, então darás vida por vida. Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe.
Êxodo, 21:14-25

 



Escrito por Regina Lopes às 11:13
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Moisés com os Dez Mandamentos. Ao lado, a Torá, livro sagrado dos judeus. Após revelar os mandamentos, Deus teria instruído o povo hebreu a condenar seus infratores. De acordo com a Torá, a vingança não seria uma reparação ao injustiçado e sim a Deus

Vingança na religião

A orientação judaica sobre a ação de vingança é, em muitos pontos, parecida com a de Aristóteles. A vingança é justa, sendo condição de respeito às normas. Porém, a fundamentação é diferente. Para o estagirita, a vingança é um sentimento que provém de uma infração ao modo de conduta que afeta, em última instância, a felicidade individual e coletiva. Na Torá (que em hebraico significa ''lei''), a fundamentação da vingança não está no bemestar da coletividade, mas na infração da lei em si mesma. O fundamento moral judaico não fundamenta na alteridade, no respeito ao outro, mas na obediência à vontade de Deus. É o divino, manifestado Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra e, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa. Se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. (...) Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem. Mateus 5:39-45 através de Moisés no Monte Sinai, que revelou aos hebreus suas normas adequadas de conduta.

Logo após revelar os mandamentos fundamentais, chamado pelos cristãos de Dez Mandamentos, Deus instruiu o povo hebreu sobre a condenação aos infratores segundo a lei de talião: olho por olho, dente por dente. A punição ao injusto que lesa a vítima não é regida pelo direito da vítima, como imagina o senso comum, mas pela infração aos mandamentos do próprio Deus. A vingança só pode ser operada pelos justos, os obedientes a Deus, a quem a divindade delega esse poder.

A punição ao injusto que lesa a vítima não é regida pelo direito da vítima mas pela infração aos mandamentos de Deus

Não está em jogo a felicidade da vítima ou do povo, afinal, a vida terrena advém de um castigo essencialmente infeliz do pecado no Jardim do Éden (que em hebraico significa ''jardim das delícias'' ou ''dos prazeres''), da felicidade eterna do qual o homem justo e temente a Deus pretende alcançar (por sinal este nome é parecido com o lugar terreno criado pelo filósofo grego Epicuro, materialista e não teólogo).

Leydianni, ao infringir os mandamentos religiosos de não mentir, não roubar e de não levantar falso testemunho, contraria a vontade de Deus. Se Jabhal fosse um judeu típico, teria que buscar a vingança por motivos sagrados e não pessoais. Deveria consultar os religiosos para saber como ele deveria proceder. Problema complexo. Afinal, olho por olho, pé por pé, é uma medida fácil. Mas e quando o estrago é difícil de se medir, como a honra de uma pessoa?

Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra e, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa. Se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. (...) Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem. Mateus 5:39-45

 

 

Mas nossa perspectiva religiosa pode ser outra. Muito parecida com o judaísmo, mas não igual. Os cristãos, aqueles que professam sua fé em Jesus Cristo como filho de Deus, messias, cordeiro sacrificado para redenção dos pecados do mundo, possuem outra perspectiva da vingança. A mensagem principal do pensamento cristão não é a busca pela justiça divina, como ocorre no judaísmo e no islã, mas a manifestação do amor de Deus pelos homens. Pelo sofrimento e morte do Cristo, que é a própria divindade encarnada, somos salvos dos nossos pecados e habilitados a morar novamente no paraíso. Em seu novo testamento, Deus se preocupa mais com a redenção do que com a punição dos nossos desvios.



Escrito por Regina Lopes às 11:12
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Jesus Cristo, arauto da nova fé, se faz claro ao afirmar que, quem quiser alcançar o perdão de Deus e habitar o paraíso, deve ser capaz de perdoar todo aquele que lhe fizer mal. A lei mosaica diz que o justo deve punir o injusto, que o servo obediente deve punir o pecador. Porém, quem teria condições morais suficientes para levar a cabo a justiça de Deus e condenar o seu próximo? Que homem, além do Cristo, é tão puro e correto que possa colocar em prática a justiça de Deus? Segundo as normas bíblicas, ninguém. Todos cometemos deslizes e buscamos o perdão. Deus é o único ser inteiramente justo capaz de se vingar. Se Ele, no alto de sua justiça e glória, se faz humilde ao nos perdoar, porque então nós, que somos menos perfeitos, não somos capazes de fazer o mesmo?

Um ponto que une ambas as religiões é a afirmação de que a felicidade não está neste mundo. Desde o início da Bíblia, com o Gênesis, até o último livro, o Apocalipse, a vida na Terra é apresentada como um castigo. Um estado de punição pelo pecado. Vingar-se ou não é uma questão para uma felicidade além do mundo, sem ter relações com a vida presente. A esperança no futuro é o que distingue Cristo de Sêneca no tocante ao tema.


Movimentos psíquicos

A perspectiva psicanalítica sobre a vingança é bem rica. Proporciona outros olhares e perspectivas complementares ao pensamento filosófico sobre este assunto. Leydianni, numa perspectiva psíquica, é uma típica representante da personalidade perversa. Ela é sedutora, mentirosa, manipuladora e possui um traço que a distingue, por exemplo, de uma pessoa histérica: ela utiliza o outro como seu objeto. Sem se importar com seus sentimentos ou sentir culpa por isso. Leydianni "vampiriza" Jabhal utilizando-se da sedução e da mentira para obter dele favores acadêmicos e dinheiro. Teatraliza, sem sentir remorsos, no intuito de usar nosso herói. Ela arquiteta situações que deixam Jabhal cheio de desejo, culpa, desespero e utiliza do seu sentimento de compaixão para conseguir o que quer. Como toda perversa, ela tira proveito da situação de sofrimento e constrangimento em que coloca Jabhal e a universidade. Locomove-se pela inveja e pela destruição. Aproveita a tristeza alheia em benefício próprio.

É comum encontrar pessoas que são sobrecarregadas por um sentimento de culpa e na verdade bloqueadas por ele. Elas o carregam como uma carga nas costas como a dos cristãos no Pilgrim´s Progress. Nós sabemos que estas pessoas têm um potencial esforço construtivo. (...) Podemos estudar esses excessos do sentimento de culpa em indivíduos que passam por normais, e que na verdade estão entre os membros mais valiosos da sociedade. (...) Sem dúvida, em parte das pessoas há uma falta de capacidade em sentir culpa. (...) Não é raro encontrar indivíduos que tiveram um desenvolvimento sadio apenas em parte, e que em parte são incapazes de atingir real preocupação, sentimento de culpa ou remorso. Winnicott, O ambiente e os processos de maturação

 


O perverso, ao contrário do padrão neurótico, não passou pelo doloroso sentimento de temer a castração edipiana. Ao contrário da normalidade, o perverso não aceita a Lei e as normas socialmente compartilhadas. Ele se apega em seu narcisismo, em sua devoção por si mesmo, e constitui para si uma lógica moral egocêntrica. Por isso, não se preocupa com o outro. Seu aparente sentimento de arrependimento, seu sofrimento, não se constitui na culpa pelo que fez, mas na ferida narcísica em falhar. Leydianni faz o que faz sem dificuldades. Um eventual choro pode ser uma teatralização ou ter origem na simples constatação de que ela não pode fazer tudo o que acreditava ser capaz de fazer. Acumula sentimentos primitivos de culpas imperdoáveis. Sente inveja, raiva e desprezo pela possibilidade das pessoas serem felizes. Sentimento esse que ela nunca poderá sentir satisfatoriamente.

Jabhal, por outro lado, é um típico neurótico. Sua principal característica é se sentir incomodado por recorrentes sentimentos de culpa. Sintoma que revela o triunfo excessivo da rigidez moral sobre os desejos. Este sentimento de culpa advém da percepção consciente e inconsciente de impulsos condenados pela lei moral.

Narciso, na mitologia um admirador da própria beleza. O narcisista tem uma lógica moral egocêntrica e não se arrepende por seus atos cruéis ou sente culpa pelo que fez



Nosso herói se sente culpado por desejar uma mulher que era noiva por fraudar o processo acadêmico para ajudála. Inconscientemente, ele se preocupa com possíveis retaliações do noivo sobre Leydianni e absorve os sentimentos de culpa que ela deveria sentir. Sente-se culpado pelas agressões e descasos do noivo, afinal, inconscientemente, há uma identificação com ele. Sem perceber, Jabhal gostaria de maltratar Leydianni, em fantasia, toda vez que ela frustrava seu desejo. Todo esse sentimento de culpa só encontrou alívio com uma punição movida pelo inconsciente. Uma autossabotagem, concretizada pelo golpe financeiro e em sua honra. Pessoas com problemas iguais ao de Jabhal são prezas fáceis para perversos como Leydianni. Não somente no campo acadêmico, mas também no familiar e profissional. A inúmeros golpistas que usaram da sedução para conseguir uma gravidez "indesejada", tirar proveito no trabalho, chantagear o chefe ou mesmo criar situações de constrangimento a empresa. Apesar da história fictícia, não estamos tão distantes do que acontece na realidade.



 



Escrito por Regina Lopes às 11:11
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A objetivo da vingança é, em essência, fazer com que a pessoa que prejudicou passe pela mesma situação de dor da vítima

 

O retorno do filho Pródigo, de Rembrandt (1668). A parábola conta a história de um filho arrependido que volta a procurar o pai e é perdoado. Para o cristianismo, a redenção é mais valiosa do que a punição pelos erros

O desejo de vingança que consome Jabhal é muito forte. Afinal, ele deu o seu melhor para ajudá-la e, em contrapartida, foi lesado. Do ponto de vista psíquico o que se busca, na vingança, não é a tentativa de solucionar um dano sofrido. Uma busca pessoal para restaurar o status quo antes do golpe. O objetivo da vingança é, em essência, fazer com que a pessoa que prejudicou passe pela mesma situação de dor da vítima. A vingança se baseia em um fundamento arcaico do inconsciente moralizado: não faça comigo o que você não gostaria que fizessem com você. Sua mensagem é essencialmente um apelo de humanidade: quero que você saiba o quanto me machucou e que aprenda, com essa vingança, a se arrepender e que nunca mais repita esta atitude com outras pessoas. Por isso, apesar dos males que causa, muitas culturas atribuem a vingança um valor moral positivo.

Muitos, obviamente, se questionam sobre a sugestão psicanalítica para a vingança. A resposta é simples, não há. Aqui, Filosofia e Psicanálise se aproximam quando constatam que não é fácil viver. De que não existem respostas prontas ou universais para todos os casos. Por isso, os conselhos geralmente são ruins e desnecessários. O único convite que ambos sugerem é o de refletir melhor sobre a vida que se leva. Sobre as decisões a se tomar. Pensar sobre nossas tristezas e possibilidades de alegria. Com ou sem vingança. Questão genuinamente filosófica sobre a vida que vale a pena ser vivida.




Este é um texto especial baseado nas reflexões do livro A vida que vale a pena ser vivida, dos autores Arthur Meucci e Clóvis de Barros Filho, que será lançado, em maio, pela Editora Vozes.




Referências

ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Brasília: Ed. UNB, 2001

SENÊCA. De la colera (Da ira). Madrid: Alianza, 1986

WINNICOTT, Donald. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983

Um famoso ditado popular diz ser a vingança um prato que se serve frio, ou seja, ela será mais eficiente quando bem planejada e executada na hora mais apropriada. Outra interpretação é de que a vingança não deve ser cometida imediatamente para que não se faça bobagens, movido pelo calor do momento

 

 

 



Escrito por Regina Lopes às 11:05
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Chaplin, uma vida
Um romance familiar

O registro da entrada no orfanato Hanwell:
- Chaplin, Charles, 7 anos, protestante.
- Admitido em 18 de junho de 1896...

 

O AUTOR
Stephen Weissman,
psiquiatra de formação, pesquisou a vida de Chaplin durante anos e estudou todos os documentos que o levaram a conhecer o grande mestre da sétima arte profundamente. Autor de diversos livros de psiquiatria, é professor da Washington School of Psychiatry e mora em Washington, D.C.


Ele fez a viagem de 19 quilômetros até o orfanato em um carro de padaria puxado a cavalos. Sacudindo e dando solavancos por estradas ladeadas de castanheiras, passando por pomares e campos de trigos, a carroça cruzou o perfumado e verde interior inglês. Para o garoto de 7 anos, era um sopro de ar fresco comparado com as lúgubres ruas cinzentas e o denso nevoeiro enfumaçado dos sufocantes pardieiros do sul de Londres de onde tinha saído. Até, claro, ser recebido pela primeira das duras exigências da vida rigidamente disciplinada que esperava por ele. O menino Charles logo se tornou mais um no triste grupo de 35 jovens reprovados que tiveram o estigma de cabeças raspadas e tingidas de iodo, em outra lamentável quarentena daquele ano.

Vasculhando as películas de celuloide, não é difícil captar o cheiro de sua infância. Claro que é possível especular sobre os detalhes exatos. A carroça de padaria da escola Hanwell era fechada, como a que levou a jovem que acabara de ficar órfã em Tempos Modernos ou era aberta, como aquela na qual a criança abandonada foi mandada para o orfanato em O garoto? E as tristes lembranças de orfanato de Chaplin tendo a cabeça raspada, não eram a fonte de sua eterna preocupação com a maravilhosa cena do circo de pulgas, inserida no retorno do palhaço Calvero em Luzes da ribalta?

As trocas de Calvero, entre um vagabundo picado por pulgas, se coçando constrangido e o treinador de insetos acrobatas orgulhosamente exibindo seu corpo de baile, são executadas com brilhantismo cômico. Mas dizer que Chaplin controlou seu velho terror do orfanato, de se descobrir infestado de pulgas transformando isso em uma divertida peça exibicionista, não serve muito para aumentar nossa compreensão do funcionamento do processo criativo.

Uma explicação tão crua depende inteiramente do primado de Freud sobre a psicologia das piadas para explicar os mecanismos sutis da comédia. Ele pressupõe que a mente cômica funciona como um caldeirão do “id” automaticamente transformando medos infantis em brincadeiras escolares que são periodicamente cuspidas das profundezas borbulhantes do inconsciente.

Como Dickens, que era assombrado por seu encontro ainda menino com a caixa de engraxate e a prisão dos pais por causa de dívidas, Charles Chaplin nunca se esqueceu do trágico mergulho de sua família na pobreza e dos momentos brutais de sua infância. Ele os relembrou repetidamente na sua persona imortal do Adorável Vagabundo. Não só o personagem de Charlie reviveu, e algumas vezes triunfou sobre seus problemas de infância, como em certos momentos seu vagabundo também pareceu determinado a corrigir a situação difícil dos pais, embora em clima de pastelão. A despeito de sua aparência fraca e ineficaz, o vagabundo-heroi cambaleante e desajeitado de Charlie tem uma determinação férrea de salvar jovens suplicantes assoladas por pobreza, desemprego, solidão, internação, doenças físicas incuráveis, prostituição, bebês roubados e outros terríveis apuros. E quando embriagado, como esteve em pelo menos doze filmagens diferentes, o Adorável Vagabundo de Chaplin abre seu caminho trôpego por uma pista de obstáculos repleta de braços letais e quedas cômicas, concebidas para destruir qualquer um, menos o alcoólatra mais ágil. Com milagres coreográficos inventados por seu criador, os bêbados de Chaplin são sempre vigiados e afastados do perigo por seus anjos da guarda.



Escrito por Regina Lopes às 10:55
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Em seu fade-out mais memorável, o Adorável Vagabundo deixa a cena em direção ao pôr do sol, desolado e só. O mais impressionante sobre os retratos nostálgico criados por Chaplin, de sua família e do sofrimento solitário de sua infância, nessas cenas é o tom agridoce de sua visão cômica e o modo marcantemente magnânimo pelo qual ele festeja seus pais displicentes.

Mas Chaplin não foi apenas grande: ele foi gigantesco. Em um mundo arruinado pela guerra, ele trouxe o som do riso e alívio para tantas pessoas que necessitavam de alento durante períodos tão dilacerantes como a Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão. Ao apresentar uma investigação sobre a trajetória de Chaplin e as fontes de sua genialidade, Stephen Weissman explica, de maneira detalhada e fascinante, como a infância trágica formou a personalidade e a arte daquele que é considerado um gênio atemporal.

SOBRE O LIVRO
Teria Chaplin transformado tragédias pessoais em comédia universal, criando o Adorável Vagabundo como paródia e homenagem ao pai alcoólatra? Seriam as heroínas de seus fi lmes partes recordadas e reprimidas da mãe adorada e de vida trágica? Uma mistura de história social corajosa, romance e ciência médica, o livro disseca o tempestuoso cortejo e o desastroso casamento dos pais de Chaplin. Depois nos leva ao mundo do teatro de variedades vitoriano. Dá vida às ruas do sul de Londres, ao traumático orfanato Hanwell e, fi nalmente, por um novo ângulo, a Hollywood dos anos 1910 e 1920.




Escrito por Regina Lopes às 10:53
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A alteridade como desafio

 

Reconhecer o próximo é parte essencial para a própria percepção de si, já que o "eu" só existe no contato com o outro, em um processo

em que cada um se torna interdependente



Por Rodrigo Santos Manzano


Revista Filosofia

 

O “EU” EM FOCO


Talvez um dos grandes pontos da história do pensamento humano para o desenvolvimento do individualismo tenha sido a descoberta da consciência. O primeiro filósofo a dar uma forte contribuição para esse tema foi Santo Agostinho (354-430). Buscando expor o caminho que cada homem devia traçar para chegar ao Sumo Bem, Deus, e assim à felicidade, Agostinho usa exemplos de sua própria vida na mais conhecida de suas obras, Confissões. O filósofo traça os diversos caminhos vividos por ele, experimentando as mais diversas loso as, até encontrar no cristianismo fortemente influenciado por Plotino da Milão do século IV, respostas mais rmes para seus questionamentos, de forma especial sobre a questão do mal. Seguido por ele, René Descartes (1596-1650) defendia a certeza do cogito, único ponto inquestionável numa primeira análise e acabou por justi car o egoísmo, mesmo sem ter intenção, uma vez que nem mesmo a certeza das consciências alheias me são possíveis, pois o mundo interior de alguém é algo totalmente inatingível pela razão humana. A Fenomenologia desenvolvida por Bertrand Russell (1872-1970) acabou afunilando ainda mais essa posição, já que só conhecemos aquilo que as coisas nos mostram, os fenômenos (do grego, “aquilo que aparece”) e não a coisa em si, sendo muito difícil explicar ou mesmo conhecer a consciência alheia.

Desta forma, a individualidade e a subjetividade, conceitos que ganharam espaço na re exão sobre o ser humano a partir destes pensadores, geraram seus respectivos “ismos”, ou seja, o individualismo e o subjetivismo. O contexto econômico que surge a partir do século XVII, com o capitalismo comercial, depois no século XVIII, com o industrial, fez que este cenário fosse se intensificando cada vez mais, trazendo a questão da posse, da obtenção por meio da compra, e assim, as próprias relações sociais pareceram tornar- -se mercadorias. O individualismo e o subjetivismo tornaram-se bandeiras para um discurso de independência, mas que como facilmente notamos em nosso tempo, ironicamente aumentou o processo de massi cação e de alienação diante da realidade, fazendo dos seres humanos meros números num processo que cada vez mais o desumaniza.


AS RAÍZES do individualismo atual

É comum ver a postura individualista associada aos tempos atuais, por muitos denominados como pós-moderno. O individualismo, no entanto, surge com a Modernidade e, de acordo com Simmel - em texto que tematiza o indivíduo e a sociedade em certas concepções da existência dos séculos XVIII e XIX - passa por diferentes etapas. Em um primeiro momento, o individualismo significou ter liberdade e autonomia, ainda percebendo- se e percebendo aos outros na qualidade de homem universal, por natureza livre e igual a todos os outros; mais tarde, ele seguiu o caminho de criar uma singularidade e apareceu com uma nova faceta: a busca por uma personalidade autêntica e única e o desejo de colocá-la em evidência. Simmel distingue o individualismo do século XVIII daquele do século XIX. O primeiro seria o individualismo quantitativo, do homem isolado, mas livre e responsável. Já o segundo, seria o individualismo qualitativo, aquele no qual a liberdade é uma forma de o indivíduo realizar-se em sua particularidade, ver-se como ser incomparável. Mais do que a autonomia, nesta forma de individualismo o que se valoriza é a singularidade.

(Esses conceitos aparecem no texto O indivíduo e a liberdade, do sociólogo alemão Georg Simmel (1858-1918).)



Escrito por Regina Lopes às 10:31
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Fotos: ShutterStock
Para Descartes, a certeza sobre as consciências alheias não era possível, elas seriam inatingíveis pela razão humana


A DIALÉTICA DA ALTERIDADE
Hegel é lho de um contexto totalmente inovador na história do pensamento humano. Tendo sido ele herdeiro das análises feitas por Kant sobre o processo epistemológico, e principalmente sobre a posição de xeque em que este colocou a Metafísica, o filósofo tenta justi car sua visão de que a totalidade é marcada por uma racionalidade, que ele chama de Espírito Absoluto, verificável pelos contrários, das diversas oposições nos mais diversos graus de existência. Assim, uma espiral toma a realidade no famoso esquema tese-antítese-síntese, para a evolução da história. Esta espiral demonstra que da aparente oposição pode se perceber uma lógica agindo para o aprimoramento desta mesma existência.

Nesse contexto, a individualidade fica fortemente prejudicada, uma vez que cada ser é uma espécie de manifestação do Espírito Absoluto, e assim, parte de um complexo maior. Vemos aqui o forte eco da concepção panteísta, cuja influência é notória em Hegel. Em seu complexo sistema filosófico, o filósofo nos permite analisar como as consciências chegam ao ápice do autoconhecimento somente quando em contato umas com as outras. Há um movimento de dentro para fora, que é seguido por um de fora para dentro, mostrando a necessidade da alteridade no processo epistemológico. “Chamemos conceito o movimento do saber, e objeto, o saber como unidade tranquila ou como Eu; então vemos que o objeto correspondente ao conceito, não só para nós, mas para o próprio saber. Ou, de outra maneira: chamemos conceito o que o objeto é em-si, e objeto o que é como o objeto ou para-um Outro; então ca patente que o ser-em-si e o ser-para-um-Outro são o mesmo. Com efeito, o em-si é a consciência, mas ela é igualmente aquilo para o qual é um Outro (o emsi): é para a consciência que o em-si do objeto e seu ser-para-um-Outro são o mesmo. O Eu é o conteúdo da relação e a relação mesma; defronta um Outro e ao mesmo tempo o ultrapassa; e este Outro, para ele, é apenas ele próprio”. (HEGEL, G.W.F., Fenomenologia do Espírito, Petrópolis: Vozes, p. 135)

Hegel inicia a sua análise da autopercepção da consciência a partir da sua relação com algo exterior. Em primeiro momento, ele põe um objeto, sem ser este propriamente outra consciência. Nesse processo, objeto, conceituação e consciência se fazem um só. O objeto existe fora de minha mente, mas existe também na minha mente, na consciência, pois é isto o que conhecemos. Da mesma forma que percebemos que há uma ideia correspondente ao objeto na realidade, percebemos algo que conhece este objeto. É a certeza da consciência. Porém, para Hegel, ela não vem de uma percepção interna, mas sim, posterior à percepção do alheio, algo somente compreensível sob a ótica do sistema hegeliano, fortemente marcado pela ideia de totalidade.

Como vemos, a dialética hegeliana chega ao seu extremo uma vez que o autor defende a ideia de que algo só toma consciência de si no contato com o externo. Há aqui uma dependência da consciência daquilo que lhe é externo. É como se a consciência precisasse de uma espécie de provocação advinda de fora para refletir sobre sua própria existência. Partes de um mesmo todo, o que está fora e o que está dentro se completam no processo do conhecimento e, mais ainda, no processo do autoconhecimento. Seguindo sua reflexão, Hegel percebe a necessidade que a consciência sente deste alheio, se percebendo como incompleta, e tal reflexão chega ao ápice na relação da consciência com outra consciência. A consciência se revela como um ser que deseja, devido a essa natureza incompleta, ou mais ainda, como parte de um todo que se completa no alheio. Mas essa questão do desejo entra numa espiral, pois não é só o desejo do objeto alheio que se anula, mas o desejo de algo que também se perceba, tenha consciência-de-si. Assim, a relação entre seres conscientes se baseia numa complexa relação de egoísmo e de incompletude. A consciência-de-si precisa do outro, como uma necessidade própria de satisfazer seus desejos. “Quando um objeto é em si mesmo negação, e nisso é ao mesmo tempo independente, ele é consciência. Na vida, que é o objeto do desejo, a negação ou está em um Outro, a saber, no desejo, ou está como determinidade em contraste com outra gura independente; ou então como sua natureza inorgânica universal. Mas tal natureza universal independente, na qual a negação está como negação absoluta, é o gênero como tal, ou como consciência-de-si. A consciência-de-si só alcança sua satisfação em outra consciência de si. (...) É uma consciência-de-si para uma consciência-de-si. E somente ela é, de fato: pois só assim vem-a-ser para ela a unidade de si mesma em seu ser outro”. (Idem, ibidem, p. 141 – 142)



Escrito por Regina Lopes às 10:29
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Na relação entre duas consciências, a dialética hegeliana demonstra a necessidade recíproca de cada uma delas no processo de aprimoramento da consciência-de-si. Aqui se apresenta uma nova espiral, própria do pensamento de Hegel, que leva à superação desta relação, dentro do esquema já citado, tese-antítese-síntese. Estas etapas levam à percepção do todo e à consciência de que o individual, o singular, é parte de um todo maior. Tentando traduzir, é como se a consciência-de-si, ao se deparar com outra consciência-de-si, se percebe na verdade como uma parte de uma “grande consciência”, a razão que controla o universo, ou seja, o Espírito Absoluto. “No pensamento que captou – de que a consciência singular é em si a essência absoluta –, a consciência retorna a si mesma. Para a consciência infeliz, o ser-em-si é o além dela mesma. Porém, seu movimento nela instaurou isto: a singularidade em seu completo desenvolvimento, ou a singularidade que é a consciência efetiva, como negativo de si mesma; quer dizer, como um Extremo objetivo. Em outras palavras: arrancou de si seu ser-para-si e fez dele um ser.

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“A solidão é o preço que temos de pagar por termos nascido neste período moderno, tão cheio de liberdade, de independência e do nosso próprio egoísmo”
SOSEKI NATSUME


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A confusão e correria decorrente do mundo pósmoderno faz as pessoas intensificarem uma vida de consumo e egocêntrica

Nesse veio-a-ser também para a consciência sua unidade com esse universal. Unidade que para nós não incide mais fora dela – já que o singular suprassumido é o universal. E como a consciência se conserva a si mesma em sua negatividade, essa constitui na consciência como tal a sua essência.” (Idem, ibidem, p. 172).

A forma como Hegel enxerga a realidade, a partir de seu complexo totalitário, em que o objeto de sua Filoso a é a realidade como totalidade, e cada parte como apenas um flash desta totalidade, nos parece estranha e talvez até criticável. Como realmente pode ser plausível uma análise que não deixa de ter um alto grau de especulação? Além do mais, Hegel parece deixar de lado totalmente qualquer tipo de individualidade, de singularidade, uma vez que estas são apenas momentos do Espírito Absoluto, desta razão maior que Hegel personaliza. Tais questionamentos, embora plausíveis e relevantes, não são tão importantes para o objetivo deste artigo. O que realmente importa é que a análise feita por Hegel de que a construção da consciência, e consequentemente da identidade, a partir da dialética na relação das consciências, é algo notável e nos ajuda a entender a necessidade da alteridade. Como foi dito anteriormente, só nos fazemos humanos numa relação dialética com os outros seres humanos, sofrendo e exercendo in uências na formação daquilo que somos. Só podemos nos perceber como seres humanos, conscientes, racionais, afetivos, en m, todas as potencialidades próprias do ser humano só se desenvolvem a partir do contato com o outro. A partir da relação de uns com os outros nos percebemos e nos construímos e é essa relação que gera um complexo unitário, a humanidade. Desta forma, o estudo das relações dialéticas entre consciências, a partir do esquema de fora para dentro e de dentro para fora foi de muita importância para o conhecimento humano.



Escrito por Regina Lopes às 10:28
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A DIALÉTICA HEGELIANA CHEGA AO SEU EXTREMO UMA VEZ QUE O AUTOR DEFENDE A IDEIA DE QUE ALGO SÓ TOMA CONSCIÊNCIA DE SI NO CONTATO COM O EXTERNO


O MITSEIN HEIDEGGERIANO
Para completar o caminho aberto pela abordagem hegeliana da autoconsciência, vejamos como um dos pais do Existencialismo, Martin Heidegger, trata a questão do outro, a partir de sua loso a do ser existente.

A filosofia heideggeriana busca analisar a existência e os seus fatores constitutivos. Assim, buscando romper com todo idealismo e toda Metafísica, a existência é analisada como algo que está aí, aquilo que em alemão se definiu como dasein, o ser aí, colocado, existente, um fato. Fruto da Fenomenologia, o Existencialismo busca trabalhar com os dados perceptíveis e não com os dados especulativos, colocando-se numa posição crítica frente aos fatores suprassensíveis, tão fortemente levados a sério em outras correntes losó- cas. Assim, a existência parece não ter nenhum motivo e nem mesmo um objetivo. Porém, o ser humano é quem melhor consegue compreender-se dentro desta lógica do dasein, porque pode re etir sobre si mesmo e sobre sua existência. Neste processo, surge uma série de relações, uma vez que este ser existe em um mundo anterior a si, lida com objetos alheios a si e se relaciona com outros seres, que também são formas do dasein. E é nesta relação que surge uma forma privilegiada de ser, pois o ápice da percepção do dasein está na relação entre esses seres. “Do ponto de vista ontológico, o ser para os outros é diferente do ser para coisas simplesmente dadas. O “outro” ente possui, ele mesmo, o modo de ser da presença (dasein). No ser-com e para os outros, subsiste, portanto, uma relação ontológica entre presenças. Essa relação, pode-se dizer, já é cada vez constitutiva da própria presença, a qual possui por si mesma uma compreensão de ser e, assim, relaciona-se com a presença. A relação ontológica com os outros torna-se, pois, projeção do próprio ser para si mesmo “num outro”. O outro é um duplo si mesmo. (HEIDEGGER, M. Ser e Tempo, Petrópolis: Vozes, p. 181)

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René Descartes (1596-1650) justificou certo egoísmo ao eleger o cogito como única certeza inquestionável


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Alteridade é “natureza ou condição do que é outro, do que é distinto” (Dicionário Houaiss). Seu conceito parte da premissa de que todo homem social interage e interdepende de outros homens. Assim, o “eu” só existe em contato com o outro – e a partir do outro, da visão desse.

 

 

 



Escrito por Regina Lopes às 10:28
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PRESENÇA DO OUTRO
Os seres conscientes, que para Heidegger são a forma privilegiada do dasein, são os que podem se perceber nesta dinâmica de existência, se veem diante de um mundo no qual vivem, de coisas com as quais devem interagir, e coisas estas que nos vêm às mãos pela ação de outros humanos. Toda a existência, portanto, é marcada pela presença do outro, que interfere, in- uencia, interage conosco, revelando este caráter do dasein. “Os outros (...) são aqueles dos quais, na maior parte das vezes, não se consegue propriamente diferenciar, são aqueles entre os quais também se está. Esse estar também com os outros não possui o caráter ontológico de um ser simplesmente dado ‘em conjunto’ dentro de um mundo. O ‘com’ é uma determinação da presença. O ‘também’ signi ca a igualdade no ser enquanto ser-no-mundo que se ocupa dentro de uma circunvisão. ‘Com’ e ‘também’ devem ser entendidos existencialmente e não categorialmente. À base desse ser-no-mundo determinado pelo com, o mundo é sempre o mundo compartilhado. O ser-em é ser-com os outros. O ser-em-si intramundano desses outros é co-presença.” (Idem, ibidem, p. 174 – 175).

Assim, é a partir do conceito de dasein que este se torna realidade nos seres existentes, que podem tomar consciência de sua existência, e que se relacionam entre si, mas que são individuais. Ao contrário de Hegel, que vê no processo de conhecimento do outro um movimento do Espírito Absoluto, no qual cada parte se move dentro dele, o processo de Heidegger intui este ser como algo que é realidade nos vários seres. Não existe, como nas loso as idealistas, um ser que se faz real nos seres. Pelo contrário, o dasein é apenas um conceito que busca explicar a complexa realidade da existência, daquilo que vem a ser, e que está circunscrita no espaço, no mundo e no tempo. Inclusive, tão forte é a questão do tempo em Heidegger, que sua análise, buscando explicitar o sentido do existir, chega à conclusão de que o ser é ser-para-amorte, única coisa realmente garantida na existência. Assim, uma angústia será sempre notória na existência, porque chega a ser contraditória a existência, uma vez que a única aparente certeza que se tem nela é o seu fim. O dasein se revela como abertura, mesmo que se busque fechar aos outros.

Assim, nasce também uma relação nesta lógica do ser-com. Heidegger vai de- nir a relação com o outro pelo conceito de preocupação, tomando a angústia que é própria da existência. E em suma, Heidegger vê a preocupação de duas formas: uma que acaba aprisionando, alienando, pois toma do outro o cuidado que ele deve ter consigo mesmo, como se um vivesse a vida do outro. A outra, mais positiva, busca auxiliar na libertação, na formação da existência, num processo de auxílio na construção do outro. “A convivência cotidiana mantém-se entre os dois extremos da preocupação positiva – o salto dominador que substitui e o salto liberador que antecipa.” (Idem, ibidem, p. 178 – 179).

A análise de Heidegger nos leva a re- etir sobre a necessidade de ver o outro como um ser existente e consciente de sua existência. Mesmo sendo contrário à atribuição de um sentido à existência, Heidegger abre caminhos para uma re exão ética uma vez que ele percebe que os demais seres são dependentes entre si, vendo isso como algo que é fato, não podendo ser ignorado, mostrando que a presença é em si copresença. Em outras palavras, o dasein é mitsein (“ser-com”, em alemão).

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O individualismo, ironicamente, levou a um processo de massificação, fazendo dos seres humanos meros números

 



Escrito por Regina Lopes às 10:27
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Portanto, segundo Hegel, negar a importância do outro é negar o próprio autoconhecimento, e querer se retirar da coexistência, da convivência, é viver inautenticamente, como diria Heidegger. Assim, re etir sobre a humanidade, sobre a dialética indivíduocomunidade, e assim nos posicionarmos de um modo diferente, que nos leve mais ao próximo, que busquemos mais sua evolução, seu crescimento, e que faça crescer em nós os laços de solidariedade, não é algo tão irracional. Pelo contrário, nosso tempo pede como desa o um olhar mais atento às necessidades do próximo, uma vez que diferenças, e consequentes rivalidades, vão se tornando mais acentuadas e ameaçam até mesmo as sociedades em todo o mundo. Reconhecer o outro como uma parte de um todo compartilhado é algo necessário. O verdadeiro sentimento de humanidade, de humanismo, urge a partir do reconhecimento do outro neste processo em que cada um se torna interdependente. A partir da abertura para o outro, reconhecendo a dignidade deste, podemos repensar a relações e até novas noções éticas para toda a humanidade.

As abordagens trazidas por Hegel e Heidegger nos apontam para a natureza incompleta, limitada do ser humano, que mesmo não percebendo, necessita do próximo para se completar. Nosso tempo precisa valorizar a alteridade, revisitar esta ideia, para que o conceito de humanidade não acabe cedendo espaço ao de selvageria ou barbárie em que cada vez mais os seres humanos se afundam, perdendo sua própria identidade. O primeiro passo para o homem se tornar mais humano é reconhecer o valor do próximo e nossa própria natureza, nossa constituição interna, psicológica, aponta para a necessidade do próximo em nossas vidas e na formação do nosso ser. Afinal, que ser humano pode se constituir como tal sem a presença de outros seres humanos?



Escrito por Regina Lopes às 10:26
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